quarta-feira, 29 de junho de 2016

Chuvas e ventos

As lágrimas corriam-lhe pelo rosto abaixo como uma corrente de água da nascente. Quando o empregado chegou com o café perguntou-lhe se estava tudo bem. Sim disse ela Obrigada por perguntar.

Olhou de novo para o jornal MULHER ATIRA-SE PARA A FRENTE DO METRO NA BOAVISTA. A carta que ela acabara de ler foi a que foi encontrada na carteira da mulher e que o jornal publicou na íntegra.

60 anos. Sozinha, sem filhos.

Sim a solidão podia ensurdecer-nos através do silêncio gritante que se impõe. E sim, ela conseguia compreender essa mulher.

Tantos anos, sempre com os outros em primeiro e, de repente, aqui estava, vazia, ainda e sempre, primeiro os outros, e ela, não existia.

Sempre achou que pensar assim, ter pena dela própria num mundo tão profundamente injusto, violento, sádico, maléfico, terrível, que o que menos valia era precisamente o ser humano, ela, não tinha o direito de se ocupar com a mesquinhice da sua autocomiseração.

Mas este estado que também a derrubava e a perseguia podia ter também um desfecho trágico. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Chuvas e ventos

“Nem sei bem por onde começar.

Na minha cabeça os pensamentos, as imagens, os discursos surgem a uma velocidade incrível e atropelam-se inevitavelmente.  

Não quero o silêncio nem a solidão. Não agora que não consigo desligar.

Tenho tanta coisa para dizer e partilhar mas nada me sai. Nem da alma, nem da boca.
Se calhar estar calada seria o ideal, mas preciso tanto de dizer, escrever, preciso que o meu grito seja ouvido, que as minhas angústias sejam lidas e que não seja apenas uma triste pessoa num mundo incompreensível.

Gostava de escrever o que ainda não se escreveu, contudo parece que já se escreveu tudo e a única coisa que resta é reciclar dourar mais aqui, pratear mais ali e não há muito mais a dizer.

Eu não li tudo o que já se escreveu mas acho que ainda não se escreveu aquilo que eu sinto.
O que eu sinto é… uma dor imensa, brutal, desmedida que vem quando eu não quero e me sufoca quando menos espero. Que me assedia constantemente e não me deixa dormir nem descansar.

Estou tão cansada de lutar contra algo que desconheço mas que me rói por dentro, me rasga as entranhas e me faz sentir nada, ninguém…

Àqueles que poderá interessar, eu desisto!”