quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Chuvas e ventos

Chegou a casa e foi-se deitar. Esteve mais dois dias assim no “rosso”. Quase sem comer, só bebia água e coca-cola.

5ª feira levantou-se como todos os dias arranjou-se e foi trabalhar. Fiz-lhe uma festa mas não falou comigo todo esse tempo.

Andou mais ou menos normal durante uns dias. As nossas conversas eram muito brejeiras e curtas e básicas.
Não sabia como me conectar com ela de novo. Não reagia às minhas provocações e estava, diria, quase totalmente desligada. Fazia o que tinha que fazer.

Na manhã seguinte veio ter comigo disse-me que ia viajar por uns tempos…
“Por uns tempos? Isso é quanto? Uma semana, um mês, um ano?”
“O tempo que for necessário… Não há muito mais que te possa dizer. Desculpa Plutão. Pedi ao meu filho para ficar contigo e ele não se importa.”
“Não percebes que isso não funciona assim?”
“Plutão já decidi. Não quero ficar acomodada a esta vida estupida à espera de desaparecer. Ainda me sinto capaz e vou fazer algo com isso. Não espero que compreendas tu e os outros… sei que posso magoar mas as escolhas têm destas coisas. 

Não me sinto necessária e não vou mendigar por utilidade, fiabilidade etc.
Vou para onde precisam de mim e não me questionam.
Cansei da hipocrisia da democracia e liberdade. Cansei da minha própria hipocrisia. Destes lamentos, desta tristeza em que me afundo. E porquê? Porque queria mais, mas não melhor, se calhar um carro melhor, dinheiro para fazer férias, que já não me lembro quando foi a última vez…não contar os malditos tostões todos os santos meses.

E hipócrita porquê? Porque, e há Alepo, Somália, Nigéria, há aqui ao lado aquele desgraçado que faça frio, chuva, vento sol está todos os dias a fazer de conta que ajuda as pessoas a estacionar… Estou farta da “liberdade”, “democracia”, “igualdade”, “fraternidade”… estou farta de palavras vazias de sentido, conteúdo e de ação. Estou farta....

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Eisnstein








"Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito"
Einstein.






segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Chuvas e ventos

No dia seguinte Alice não acordou cedo nem com Plutão a chamá-la. Quando finalmente abriu os olhos sussurrou que não se sentia bem e que estava cheia de frio. Devia estar com febre. Pediu a Plutão para ir buscar o termómetro. Ele foi.

Estava com 42 de febre. Plutão disse que era demais que devia ligar para o 112.
“Não eu vou tomar qualquer coisa e vou ficar melhor” Nem doente Alice deixava a teimosia.

Levantou-se cambaleante e foi à caixa de primeiros socorros. Retirou de la brufen e ben-u-ron. Arrastou-se até à cozinha e tomou um dos comprimidos. Voltou para a cama. Entretanto Plutão mandou uma mensagem a uma colega de trabalho de Alice dizendo que iria meter um atestado porque estava doente.

Quando voltou ao quarto Alice adormecera de novo.

Ela não estava mesmo bem. Nunca a tinha vista tao doente. Resolveu ligar o 112. Foi abrir a porta e voltou de novo para o quarto de Alice.

Quando os paramédicos chegaram e começaram a chamar Plutão miou, miou, miou até que eles percebessem que tinham que ir ter com o gato para ver o que se passava. E assim foi.

Mediram-lhe a temperatura mas ela estava um pouco confusa e ensonada. Levaram-na para o hospital.


Esteve 3 dias mas não conseguiram detetar o foco infecioso. Assim que começou a melhorar a febre a baixar deram-lhe alta. Marcaram-lhe uma consulta quase para daí a 6 meses…

domingo, 4 de dezembro de 2016

Chuvas e Ventos

Meu Deus, como se chega aqui tão depressa… de repente parece que temos a vida à nossa frente com tempo para planearmos, imaginarmos, pensarmos… afinal somos jovens e temos o tempo todo do mundo…

Sem pensar e sem perceber muito bem como isso aconteceu chegou aqui… E não há uma segunda oportunidade, nem como voltarmos atrás…

Que desespero!

Plutão olhava para ela com uma sobrancelha levantada.

“Que foi? Diz de uma vez.”

“Alice é sempre a mesma coisa bates com a mão no peito como se fosses uma coitadinha. Estou cansado de te dizer. Bate lá com a mão no peito fazes isso tantas vezes que deve resolver alguma coisa…finalizou com uma ponta de escárnio.

“E tu queres que pense nas guerras nas criancinhas com fome… em toda a miséria que grassa no mundo. Fica sabendo que penso e de que serve? Pensamentos não movem montanhas nem sonhos nem m**** nenhuma.” Gandhi, Kennedy, Martin Luther King, Indira Gandhi e aquele que eu adoro e respeito profundamente que mostrou ser um ser humano superior, e não estou a dizer perfeito, Nelson Mandela conseguiram o quê? Um momento! Olha à tua volta… Dá-me vómitos fazer parte disto… e não estou para levar com a tua moralidade! Deixa-me em paz”

“Certo sabichona. Solução: chorar, lamentar, e manteres tudo na mesma. Vou repetir o que já te tenho dito: és tu que tens que mudar. Se é mudar a forma como vês as coisas, a forma como te vês, a forma como sentes as coisas, a forma como te sentes, não interessa. Só tu podes mudar as coisas através de ti. Consegues perceber isso?”

Alice não respondeu… de imediato.

“Afinal donde és tu? E porque estás comigo?

Plutão revirou os olhos e saiu dali.

domingo, 13 de novembro de 2016

Chuvas e ventos

Não sabia bem que caminho seguir… resolveu ir a pé. Precisava de caminhar. Estava naquela idade fantástica em que havia todas as teorias e mais alguma para fazer de conta que se continuava jovem, saudável, ativa, proactiva, dinâmica e cheia de vida…
Foi caminhar. Plutão aconchegou-se no sofá e adormeceu.

Levava a câmara fotográfica, o ipod e claro o telemóvel…

Mais uma vez pensou quando é que lhe começaram a injetar a ideia romântica do amor e percebeu que foi ao longo de toda a vida, bem embora a realidade à volta dela não tivesse nada a ver com essas ideias. Mas no fundo ela e todas as mulheres na juventude acreditavam que com elas ia ser diferente.

A arrogância da juventude… mas não só. Ainda hoje, bem lá no fundo ela gostaria que isso lhe pudesse acontecer. Encontrar essa pessoa que a via para além de todos os obstáculos, que a ouvia quando falava, que não a julgava apesar de todos os defeitos, que a deixava chorar encostada ao seu peito sem fazer perguntas… ilusões… anos e anos de educação, de sociedade, de esperança…

Esteve casada 10 anos e foi o período mais solitário da sua vida. Sempre com a esperança que as coisas mudassem.


Agora passado 15 anos, continua só, mas já não solitária. Nunca soube como ultrapassar esse receio de estar novamente acompanhada mas só. Preferiu não arriscar, se bem que nem tivesse tido muito tempo para pensar nisso. Com um filho bebé e dificuldades financeiras não sobrava tempo para mais nada. 

Agora tinha também Plutão, aquele gato extraordinário, que era verdadeiramente uma companhia.







sábado, 5 de novembro de 2016

Chuvas e ventos

Chegaram a casa já tarde. Plutão foi para a cama dele. 
Alice abriu uma garrafa de vinho, sentou-se a fingir que via televisão e acabou por adormecer no sofá.

Acordou e viu as horas no telemóvel. Credo 9.30! Ficou furiosa num momento mas, logo a seguir, mandou mensagem a dizer que ia meter um dia de férias pois tinha tido uma noite terrível. Acabou de o fazer, poisou o telemóvel, virou-se para o outro lado e adormeceu.



Acordou com o telemóvel a vibrar, olhou e viu que era o filho.
- Sim?
- Não foste trabalhar? Está tudo bem?
- Sim porquê? Adormeci, ando cansada, e meti um dia de férias.
- Pronto. A chata da tua amiga Carmo pediu-me para saber se estavas bem, insistentemente. Não entendo a preocupação dela… às vezes acho que é fufa e tem uma paixoneta por ti.

Desata a rir.

-Não sejas obtuso Jaime. Não te eduquei assim. Está tudo bem. Beijos. 
E desligou o telemóvel.

Adormeceu, novamente. Quando acordou já o sol ia alto e o dia estava bonito. Percebia pela claridade que penetrava pelas frinchas da persiana.
Enrolou-se nos lençóis novamente. Não queria estar lúcida, nem lhe apetecia levantar-se… por outro lado os sonhos dela de tão estranhos deixavam-na cansada.

Deixou-se estar. De repente salta da cama. Chega.

-Vou dar um giro.

Detestava sair assim sem objetivos. Sair por sair de certeza que acabaria num shopping… 1º porque se fosse sem destino ia passar o tempo todo a pensar no que já estava farta de pensar… se fosse ao shopping ia passar o tempo todo a maldizer a porcaria dos preços e das coisas e as pessoas…



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Chuvas e ventos

- Sinto-me só… Eu sei o que vais dizer.
(disse assertivamente sem olhar para Plutão) A solidão que eu sinto não têm a ver nem com acompanhamento, nem com ter programas, nem com ter amigos, nem com ter família, nem com o estar ocupada… é algo muito profundo… nem eu percebo bem porque a sinto.
Um cansaço e de alguma forma um vazio…

Voltou o silêncio e o olhar o horizonte.

Plutão queria muito dizer-lhe algo fora dos clichés habituais de psicologia e senso comum, mas não lhe ocorria nada. Preferiu manter-se em silêncio, apenas lhe pôs a patinha em cima da mão dela.

- Alice? Ela olhou para ele. Achas que sabes o que te preencheria? Como poderíamos colmatar isso? Tens ideia?

Alice sorriu.

- Se tivesse Plutão provavelmente já o teria tentado fazer. Sei que quando ouço música me sinto muito bem e quando olho céu. Antes, fazia-me bem pintar ou escrever… mas agora perdi essas pequenas qualidades.

- Como sabes que as perdeste?

- Porque sempre que tento pintar não sai nada… e quando tento escrever nada sai. É assim que sei Plutão. Olhou para ele e retirou a mão de baixo da patita dele.

- Vamos embora.



domingo, 2 de outubro de 2016

Chuvas e ventos

- A sério Plutão? Frases que são autênticos clichês podem me ajudar? Racionalmente sei isso tudo. Emocionalmente não sei como fazer. Tu sabes?

- Amanhã falamos melhor. Vai descansar.

Ainda foi procurar uma garrafa de vinho. Que estranho não encontrou nenhuma… foi para a cama. O dia seguinte era de trabalho. Não conseguia adormecer, virava-se e revirava-se, acendia a luz e lia um pouco, mas nada resultava. Levantou-se e foi ver se tinha alguma coisa que a pudesse ajudar. Vasculhava na caixa dos medicamentos “Não consegues dormir?” Deu um salto espalhando os medicamentos no chão.

- Credo!! Tu não sabes que ainda não estou habituada à tua presença sonora?

- Porque não vais dar uma corridinha lá fora quando chegares estás tão cansada que nem precisas de comprimido.

- Tu achas-te muito esperto, não é?

- Ok Alice agora exagerei, mas não podes continuar assim. Tomas qualquer porcaria com vinho para dormir. Já pensaste no que isso te pode fazer? Tira uns dias, vai a um psicólogo e tenta fazer as coisas direitas, para teu próprio bem e meu já agora.
Sorriu a tentar suavizar o momento.

Alice pegou em Plutão metei-o no carro e disse “Vamos dar um giro”.

Foram à praia. Estava fresco, mas não era um dia desagradável. Ficaram os dois sentados no muro virados para o mar. No horizonte o sol estava quase a deitar-se e a imensidão de um lento e avassalador mar quase paralisava a mente e o corpo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Chuvas e ventos

Plutão quando a sentia assim subia para o sofá e ficava ali juntinho a ela como quem diz: relaxa e descansa, eu estou aqui.
Este comportamento rapidamente se deteriorou. Começou a faltar dias seguidos, a chegar atrasada e o visual desleixado.
Alice sabia que estava a perder o controle. Resolveu meter férias durante um tempo. Tinha que parar pensar e retomar o controlo da sua vida.
Chegou a casa, atirou a carteira para o chão descalçou os sapatos tirou as calças e atirou-se para o sofá. Chorou como uma menininha, sem saber ao certo porquê. Plutão subiu para o sofá com cuidado para não ficar em cima dela.

-Tens que começar a deixar de ter pena de ti e a controlares novamente a tua vida.
Alice saltou do sofá e olhou para todo o lado para saber de onde vinha esta voz. Procurou em toda a casa mas não estava ninguém. A televisão estava desligada…
- Alice sou eu Plutão.
Alice achou que devia ser um sonho demasiado realista.
-Tu és um gato não falas. Estou a sonhar?
- Não Alice. Eu sou um gato especial ou melhor diferente. Sou uma espécie de pessoa em forma de gato.
- Eu não posso acreditar nisso. Estou a sonhar de certeza.
- Bom Alice enquanto que te refazes da surpresa, vou falando. Alice és uma mulher mais que adulta. Este teu tempo tem que se bem aproveitado. Tens tanta pena de ti porquê? Não é a coisa material. Querias algo que não tens? Sentes-te sozinha?

Alice estava calada.

- Fala Alice. Para que serve sentir se não falas?
- Já me julgaste, disseste que tenho pena de mim, que queres que fale se já sabes tudo?
- Achas que estou errado?
Alice virou a cabeça para a janela e permaneceu em silêncio.

Plutão levantou-se e saiu do sofá.

- Não propriamente. Às vezes acho que merecia uma vida menos complexa e complicada, menos cansativa.
- Alice não sejas ingénua. Tu e quantos mais?
- Achas que não sei isso? Eu sinto o que sinto. Os outros sentem o que sentem.

- Pelo menos sabes que não és só te que mereces. Tens que encontrar outro registo. Deixar de pensar em ti, nas negativas e valorizares as positivas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Chuvas e ventos

Este comportamento rapidamente se deteriorou. Começou a faltar dias seguidos, a chegar atrasada e o visual desleixado.
Alice sabia que estava a perder o controle. Resolveu meter férias durante um tempo. Tinha que parar pensar e retomar o controlo da sua vida.
Chegou a casa, atirou a carteira para o chão descalçou os sapatos tirou as calças e atirou-se para o sofá. Chorou como uma menininha, sem saber ao certo porquê. Plutão subiu para o sofá com cuidado para não ficar em cima dela.

-Tens que começar a deixar de ter pena de ti e a controlares novamente a tua vida.

Alice saltou do sofá e olhou para todo o lado para saber de onde vinha esta voz. Procurou em toda a casa mas não estava ninguém. A televisão estava desligada…

- Alice sou eu Plutão.
Alice achou que devia ser um sonho demasiado realista.
-Tu és um gato não falas. Estou a sonhar?
- Não Alice. Eu sou um gato especial ou melhor diferente. Sou uma espécie de pessoa em forma de gato.
- Eu não posso acreditar nisso. Estou a sonhar de certeza.
-Bom Alice enquanto te refazes da surpresa, vou falando. Alice és uma mulher mais que adulta. Este teu tempo tem que se bem aproveitado. Tens tanta pena de ti porquê? Não é a coisa material. Querias algo que não tens? Sentes-te sozinha?
Alice estava calada.
- Fala Alice. Para que serve sentir se não falas?
- Já me julgaste, disseste que tenho pena de mim, que queres que fale se já sabes tudo?
- Achas que estou errado?

Alice virou a cabeça para a janela e permaneceu em silêncio.
Plutão levantou-se e saiu do sofá.

- Não propriamente. Às vezes acho que merecia uma vida menos complexa e complicada, menos cansativa.
- Alice não sejas ingénua. Tu e quantos mais?
- Achas que não sei isso? Eu sinto o que sinto. Os outros sentem o que sentem.
- Pelo menos sabes que não és só te que mereces. Tens que encontrar outro registo. Deixar de pensar em ti, nas negativas e valorizares as positivas.
- A sério Plutão? Frases que são autênticos clichês podem me ajudar? Racionalmente sei isso tudo. Emocionalmente não sei como fazer. Tu sabes?

- Amanhã falamos melhor. Vai descansar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Chuvas e ventos

Era uma mulher bonita, inteligente, mas emocionalmente instável, insegura e de alguma forma com uma auto estima baixa. Embora a elogiassem com alguma frequência, as palavras que para ela eram profundamente importantes, pois eram também uma forma de comunicação muito importante e menos invasiva, quando estas se dirigiam à sua pessoa ela desvalorizava.

Adotou total e completamente o gato. Chamou-lhe de Platão. Adorou sempre a alegoria da caverna, ou melhor era completamente apaixonada por esse texto que diz praticamente tudo o que acontece na vida de cada um de nós ainda hoje. Mas isto são já deambulações.
Platão passou a ser a razão pela qual ir para casa era um objetivo e ao mesmo tempo uma necessidade.

Quando chegava, Platão vinha ter com ela, miava e enroscava-se nas suas pernas. Ela fazia–lhe festas e dava-lhe um biscoito que ele adorava.

No emprego começaram a estranhar o comportamento claramente diferente de Alice. Andava mais reservada, menos efusiva e mais concentrada no trabalho. Pensaram que seria uma fase. Fisicamente ela estava muito bem. Tinha até emagrecido um pouco. Alguns pensaram que se tinha apaixonado…
Contudo Alice dizia que não se passava nada e que estavam a fazer um bicho de sete cabeças.

Não lhe apetecia falar com ninguém e à noite com uns copitos de vinho e só lhe apetecia dormir. Por alguma razão que desconhecia começava a ser alérgica ao ser humano e à sua coscuvilhice natural. Claro que o vinho a punha a dormir rapidamente, mas também rapidamente acordava e tinha daquelas insónias brutais. Arranjou uns comprimidos que com o álcool a faziam dormir até mais que o que devia.



Plutão quando a sentia assim subia para o sofá e ficava ali juntinho a ela como quem diz: relaxa e descansa, eu estou aqui .

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Chuvas e ventos

Quando chegou a casa sentiu de novo aquela ansiedade, mas ao mesmo tempo estava tão cansada e tinha que se levantar cedo… de repente já dormia.

Olhou o telemóvel – 4 horas. Levantou-se. Foi ler. Adormeceu novamente no sofá. Acordava sempre dorida mas isso acontecia redundantemente. Preparou-se e foi trabalhar.

Estava um dia bonito e não lhe apetecia ir já para aquela casa vazia. Saiu umas paragens antes e foi a pé. Colocou os fones. A música era um analgésico, primeiro porque a fazia esquecer a dor, literalmente, não a dor física mas a outra, e segundo, fazia-a sentir-se mais positiva e alegre.


No caminho viu algo a mexer-se numas ervas, num pequeno intervalo entre dois prédios. Ao princípio assustou-se, mas depois percebeu que era um gatinho que parecia ter sido abandonado. Baixou-se e pegou nele. Estava ferido, tinha sangue numa patinha e devia estar com fome. Aconchegou-o e levou-o para casa. Lá tratou o melhor possível do gato. Deu-lhe leite e resolveu levá-lo ao veterinário. Não podia. Estava sem dinheiro, ou melhor, não sobrava nada para extras este mês.

Arranjou uma caixa e forrou-a para ser a cama do gatinho e pôs um jornal no chão. Alice sabia que eram os cães que utilizavam o jornal, mas era apenas um remedeio, mais tarde pensaria numa outra solução.

Alice estatura mediana, com curvas pronunciadas, feições bonitas 

domingo, 10 de julho de 2016

Chuvas e ventos

Foi assim que ela se libertou de todas as amarras, compromissos e responsabilidades e recomeçou a viver. A sua profunda solidariedade e amor por aquela mulher que não teve a oportunidade que ela, Alice teve, eram enormes.

O que esta sociedade democrática, neoliberal, liberal, e mais que al, faz é subjugar, limitar, cercear o ser humano de responsabilidades para alimentar uns quantos numa máquina de corrupção e poder.

E elas, mulheres que pensaram no início do séc. 20 estar a lutar por direitos iguais e liberdade, estiveram a lutar pela ilusão desses direitos. Nunca uma mulher teve tanta responsabilidade como aquela que tem agora: ser mulher, profissional, mãe, esposa e filha. Tanta coisa, tanta dor e tanta culpa por não serem imensas, globais, totais.

Nesse dia não quis ir para casa. Não queria estar sozinha também. Telefonou a alguns amigos mas, era 4ª feira, tinham todos, as suas vidas para viverem.

Foi ao Aduela. Ia lá de vez em quando com as amigas mas só de dia. À noite também era interessante. Ainda bem que tinha chegado cedo. Sentou-se cá fora. A noite estava quente e a mesa estava estrategicamente situada.

Como um predador, sentou-se, munida do seu copo e esperou.

Ali estava ele. Acompanhado de várias pessoas. Interessante.

Alice sabia que o homem que ela desejasse era também desejado por outras
.

Era esse jogo hoje que lhe dava verdadeiro prazer. Eles escolherem-na sem se aperceber que tinha sido ela a escolhê-los.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Chuvas e ventos

As lágrimas corriam-lhe pelo rosto abaixo como uma corrente de água da nascente. Quando o empregado chegou com o café perguntou-lhe se estava tudo bem. Sim disse ela Obrigada por perguntar.

Olhou de novo para o jornal MULHER ATIRA-SE PARA A FRENTE DO METRO NA BOAVISTA. A carta que ela acabara de ler foi a que foi encontrada na carteira da mulher e que o jornal publicou na íntegra.

60 anos. Sozinha, sem filhos.

Sim a solidão podia ensurdecer-nos através do silêncio gritante que se impõe. E sim, ela conseguia compreender essa mulher.

Tantos anos, sempre com os outros em primeiro e, de repente, aqui estava, vazia, ainda e sempre, primeiro os outros, e ela, não existia.

Sempre achou que pensar assim, ter pena dela própria num mundo tão profundamente injusto, violento, sádico, maléfico, terrível, que o que menos valia era precisamente o ser humano, ela, não tinha o direito de se ocupar com a mesquinhice da sua autocomiseração.

Mas este estado que também a derrubava e a perseguia podia ter também um desfecho trágico. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Chuvas e ventos

“Nem sei bem por onde começar.

Na minha cabeça os pensamentos, as imagens, os discursos surgem a uma velocidade incrível e atropelam-se inevitavelmente.  

Não quero o silêncio nem a solidão. Não agora que não consigo desligar.

Tenho tanta coisa para dizer e partilhar mas nada me sai. Nem da alma, nem da boca.
Se calhar estar calada seria o ideal, mas preciso tanto de dizer, escrever, preciso que o meu grito seja ouvido, que as minhas angústias sejam lidas e que não seja apenas uma triste pessoa num mundo incompreensível.

Gostava de escrever o que ainda não se escreveu, contudo parece que já se escreveu tudo e a única coisa que resta é reciclar dourar mais aqui, pratear mais ali e não há muito mais a dizer.

Eu não li tudo o que já se escreveu mas acho que ainda não se escreveu aquilo que eu sinto.
O que eu sinto é… uma dor imensa, brutal, desmedida que vem quando eu não quero e me sufoca quando menos espero. Que me assedia constantemente e não me deixa dormir nem descansar.

Estou tão cansada de lutar contra algo que desconheço mas que me rói por dentro, me rasga as entranhas e me faz sentir nada, ninguém…

Àqueles que poderá interessar, eu desisto!”

domingo, 1 de maio de 2016

Diário de uma mal-amada

A Rosa, aquela amiga da Clara, veio-se encontrar connosco no café. Gosto muito dela. Boa onda e “super” divertida. Estávamos naquela conversa
“E então como vai isso? E o teu marido?”
Conversa vai, conversa vem e, às tantas, Alice pergunta
“Não sentes saudades dele?”
Clara olha para ela de sobrancelha levantada e responde
“Alice, são quase 50 anos. Achas que há saudades? Quer dizer, ele é boa pessoa mas, deixa-o estar onde está, de vez em quando matamos saudades.”
E faz um esgar de repulsa.
“E então? Isso não é bom?” Pergunta Alice
“Olha Alice eu vou-te explicar. Nesta altura eu só quero que me deixe em paz. Achas que depois deste tempo todo, ele sem dentes, só daqueles que se poem e tiram, com o peso da gravidade e com outras coisa que não interessam eu ainda tenho alguma atração, vontade de…? Não é assim. Se calhar dizes isso porque és solteira.
Olha vou-te contar um episódio. Aqui há tempos ele chegou à cama todo contente pronto para e... sem a dentadura. Só consegui exclamar “credo homem, já me tiraste a “tesão” toda. Quando quiseres alguma coisa vê se trazes os dentes." Para que é que lhe disse isso? Agora sempre que ele está cá e vou ao quarto de banho e vejo o copo dos dentes vazio, já sei… e, pior, tenho que me apressar não vá o homem engolir a dentadura.”
Estás a ver? Partimos-nos a rir. Essa imagem é brutal. E a forma como ela disse… é de ir às lágrimas.

Continuamos a conversar e a Clara diz-lhe 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Dário de uma mal-amada

Então chegada a este meio século que, quando eu tinha 20 anos achava que as pessoas já podiam morrer pois já não fariam assim tanta falta, percebo que ainda há um mundo a descobrir e ainda posso (devo tentar) fazer a diferença. Ainda me sinto “super”capaz de dar e fazer montes de coisas. Melhor que as minhas próprias conclusões introspetivas é o perceber que não estou sozinha. As minhas amigas (as que se encontram na mesma faixa etária) sentem e pensam mais ou menos da mesma maneira.

É tão giro, de repente sentirmo-nos como se sentiam ou nos faziam senti-las, as nossas queridas mães, as amigas, as vizinhas… Como sei isso? Sei. Pelos comentários que fazemos a propósito de tudo e nada, as “maleitas” físicas com que nos debatemos e um sem número de pequenas coisas que ficaram na nossa memória sem darmos por isso.

Ora, uma vez que a nossa sociedade ainda valoriza, acima de tudo, a juventude física, etária e mental, nós as “cotas” temos que nos unir e alimentar a nossa autoestima com momentos divertidos e descontraídos.
***
Olá!
Hoje tenho uma boa para te contar!


Recordas-te que da última vez que falamos te disse que preciso de momentos de diversão e que me façam rir muito? Pois é isso mesmo, nem consigo deixar de me rir sempre que me lembro. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Diário de uma mal-amada

Meio século de existência e… Não, não consegui o cálice.
Continuo a mesma pessoa. Percebi apenas que o tempo voa efetivamente e, que nada dura, logo a relativização e aceitação são quase como uma “imposição necessária” para não enlouquecermos na totalidade. Ah! E a resignação.

Tenho vindo a perceber algumas coisas, nomeadamente que pelo facto de ter passado algumas situações graves, tristes, revoltantes não me deu sabedoria para servir de exemplo e ajudar outros a não passarem pelas mesmas coisas e, claro, vale intensamente para os filhos.

Com toda a certeza não te interessa estas filosofias “common sense”. Vamos ao que interessa.
Porque resolvi começar nesta altura da vida, em que estou mais para lá de que para cá , escrever um diário? Nem eu sei bem…
Sei apenas que falo muito sozinha, porque sou uma mulher sozinha, e resolvi que podia falar para “alguém” escrevendo, transformando-me assim, em emissor e recetor.

O que vou fazer contigo querido é imaginar que és alguém com quem eu posso falar de tudo. Ficas entre Deus e o Homem.
Como deverás compreender haverá momentos em que aquilo que falar contigo poderá ter algo de “non sense”, mas tu entenderás, em contrapartida terei momentos “brilhantes” com que te deleitarás.


Assim percorri, corri, meio século de ruas, ruelas e calçadas aos tropeções literalmente e, de repente encontro-me aqui: neste entroncamento em que existe uma estrada principal e outra secundária. Um dilema. Qual terei que seguir?

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Imagine


Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today...

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace...

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world...

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one

                                                    John Lennon

terça-feira, 22 de março de 2016

Boyce Avenue

O que faz o Homem andar?

Tenho-me perguntando periodicamente “o que faz o Homem andar?”

Que resposta obtenho?

Por incrível que pareça, algumas.

Eu esperaria que A resposta fosse apenas uma, global e abrangente. Mas afinal surgiram várias, digamos que para todos os gostos.

Para uns, a necessidade de poder e com ela, a visibilidade, a aprovação, o sucesso, a riqueza, o palco, os seguidores, fãs… para outros, a sobrevivência e com ela a necessidade de agradar, de se humilharem, de se anularem… por fim, há aqueles que procuram um significado menos material, nesta existência carnal e factual, (segundo me disseram) um lado espiritual e humano que nos distinga da existência inata, biológica e animal de todos os outros seres.

E então a que conclusões chego?

Que qualquer uma “faz o homem andar” mas, quase todas, fazem o Homem infeliz.

O trajeto que tenho feito ao longo deste tempo, tem-me mostrado que há muito mais gente fantástica, boa e com vontade de mudar tudo para melhor, do que por vezes queremos crer. Percebo também que, uns e outros, sozinhos, têm mais dificuldade em atingir aquilo a que se propõem. No entanto, também percebo a dificuldade de se juntarem em grupos.
 Os grupos promovem, em grupo, a individualização, promovem o ego de cada um, em grupo, ovacionando e permitindo que cada um se exiba, alimentando a vaidade e o orgulho de serem fantásticos.

Parece um contra senso? Mas não é. Os grupos, para existirem e se manterem como tal, (porque os grupos têm mais força) precisam de associados. Como tal é preciso alimentar, cativar os associados e, que forma melhor há, se não a alimentação do ego?

Algo, que um dia alguém que me é querido chamou do Vírus da Altura.

O Vírus da Altura, além de ser altamente contagioso é também aquilo que nos faz pensar de alguma forma que, somos especiais e melhores que ninguém. Basta vestirmos um fato oferecido por alguém bem posicionado e embora continuemos a servir-lhe o café, sentimos que ele nos deu muito mais importância que aos nossos colegas, que também servem café mas com uma bata.

É quase como tudo na vida: um ciclo… vicioso.


Como quebrá-lo? Quando deixarmos de ter medo! Medo que sejam melhores que nós, que tenham mais que nós, que falem mal de nós, que nos considerem assim e assado, que nos queiram tramar, que queiram… seja lá o que for. 


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A vida

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” Lavoisier

E se transforma, mantendo se transformando, e se transformando mantendo.
Na verdade tudo se transforma mas, por momentos e tudo se mantém por momentos. A mudança é tão fugaz como permanente… parece contra senso? E é!
Nós somos contra senso ao longo da nossa jornada… por vezes apercebemo-nos, outras não. Como? Fator acaso…? Talvez…
Tantas reticências...

Eu não sei se é geral mas, a partir de uma certa idade (no meu caso os 50) deixamos de ter certezas (contrariamente ao que sempre ouvi). Para mim tudo passou a ter uma relevância… ou melhor, para mim, tudo deixou de ser relevante.

A consciência de que tudo passa depressa demais é brutal! É impossível que aquela frase que ouvi, tantas vezes e que não liguei nenhuma, de que o tempo é curto e que “A vida dura num momento, mais leve que o pensamento, a vida leva-a o vento, a vida é folha que cai!” é a mais pura das REALIDADES!
E então?
Então nada. Isso não muda nada. A minha vida continua exatamente igual.
Sim houve coisas que mudaram a minha vida. Tornaram-me: menos exigente, mais calma, sim, mais serena, mais paciente, mais tolerante… em algumas coisas, noutras, menos…
Mais sábia? Não! Curiosa? Não! Sou curiosa por natureza e agarro-me a isso para me manter à tona… para já…
O meu medo? O meu grande medo? Deixar-me ir, deixar de querer, deixar de me importar… desistir…
Isso vai acontecendo como um soluço entrecortado…
E nem sequer me arrepia muito… um pouco talvez.
E, apenas a esperança… que resta… de que, de repente, tudo deixe de ser pensado, analisado e, escamoteado… apenas deixe de ser…

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

João de Deus