domingo, 29 de março de 2015

"Na forja"

De repente sentiu-se parte de uma cena de série de televisão. Polícia por todo lado e técnicos forenses também, coisa que aliás não sabia que existia cá em Portugal.

Sentia-se estranha. Quando os paramédicos e polícia lhe faziam essa pergunta encolhia os ombros… “estou bem”. Algumas semanas depois teve que ir prestar declarações na polícia. Não contou a ninguém sobre o que aconteceu, nem a Eva. Não queria ser questionada nem queria falar sobre o assunto.

Entrou na judiciária. Não era como nos filmes. Parecia um escritório com várias secretárias. Levaram-na para uma sala normal com uma mesa simples e 3 cadeiras.

Sentou-se e à frente dela sentou-se um homem com barba e muito sério. Olhou para ela e perguntou-lhe como estava.

“Bem. Obrigada!”
“Ótimo. Se não se importa gostaria de lhe fazer algumas perguntas que são usuais em casos semelhantes”

Encolheu os ombros. Pois que remédio, lá teria que responder.

“Claro”
“Então estava a passear no parque e de repente tropeça num corpo?”
Levantou a cabeça e olhou estupefacta para o polícia.
“Desculpe eu já expliquei como foi e não foi assim! Deve ter ai nalgum relatório inicial.”
“Sim, desculpe… fiz confusão. Não se importa de repetir novamente? Só para confirmarmos…”


Sorriu esforçadamente. Credo! Os agentes nos filmes eram muito mais interessantes e simpáticos.

quarta-feira, 25 de março de 2015

"Na forja"

De repente numa das fotos percebeu que havia alguma coisa no arbusto do outro lado do lago. Fez zoom com a máquina e percebeu que estava a ver uma perna. 
Pensou de si para consigo que talvez fosse alguém ali deitado, embora o sítio não lhe parecesse indicado para tal. Esteve um pouco mais a ver se conseguia detetar movimento. Nada.

Foi até lá.

Conforme se aproximava um mal-estar ia tomando conta dela. Uma sensação de inquietação. 
Preparou a máquina fotográfica. Afastou alguns arbustos. E mesmo na sua frente um corpo inerte. Um pouco torto. Só podia estar… morto.

Um grito profundo e imenso sai das suas entranhas sem contudo ter passado pela sua boca.

Afastou-se para trás sem saber muito bem o que fazer. Tropeçou e caiu em cima de qualquer coisa. Era uma mochila.

Queria gritar mas não lhe saia som algum. Desesperada, levantou-se tirou uma fotografia e começou a correr. A primeira pessoa que encontrou pediu ajuda.


Levou-os, eram dois corredores, até junto do corpo. Assim que viram, um deles pegou no telemóvel e fez uma ligação.


sábado, 21 de março de 2015

"Na forja"

Esteve três dias fechada no quarto só se levantou para beber água, comer pão e alguma fruta.

Ligaram-lhe algumas colegas de trabalho mas não atendeu. Enviou mensagem dizendo que o tempo que estivesse em casa seria descontado das suas férias, mas que ainda não se sentia muito bem. Sentia-se mesmo mal.

Eva tem um hobby: fotografia. É algo que lhe dá verdadeiro prazer e que só partilha consigo própria. É algo muito intimista que ela prefere guardar para si só. Anda sempre com uma máquina fotográfica no carro e também por isso é que comprou um telemóvel melhor com excelente capacidade fotográfica. Nunca sabia se tinha tempo de ir buscar a máquina…

Hoje sentia-se melhor. Era sábado. Viu que já passava das 10. Ficou alguns segundos sentada na borda da cama olhando para o chão. Levantou-se num impulso e foi tomar banho. Vestiu uma roupa confortável, pegou na mala e na máquina fotográfica e saiu.


Foi dar um passeio até ao parque da cidade. Arrependeu-se mal chegou. Estava muita gente. O dia estava bonito e as pessoas aproveitam para sair. Não havia mal nenhum nisso mas Eva não gostava de encontrar muita gente. Já lá estava, tinha que ir em frente. Colocou os fones nos ouvidos e ligou o seu mp3

Olhou para o lago e os patos estavam a nadar. Pôs a câmara fotográfica em posição e começou a tirar fotos.


domingo, 15 de março de 2015

"Na forja"

O despertador tocou à hora do costume mas Eva já estava a pé. Tinha acordado com umas brutais dores de cabeça… Não era costume. Sentia-se verdadeiramente mal. Tomou uns comprimidos e voltou para a cama. Esperava que daí a meia hora se pudesse levantar e ir trabalhar.

Acordou, o sol entrava pelas frinchas da persiana. Olhou para o telemóvel e… em pânico levantou-se. Era meio-dia. Ainda meia atordoada, foi até ao quarto de banho e vomitou. Já não lhe doía a cabeça mas sentia-se muito mal disposta. Mandou mensagem para uma colega de trabalho dizendo que não ia trabalhar e que metia um dia de férias. Olhou para o espelho. Reconhecia-se e sem dúvida que o tempo tinha passado por ela. Ainda não tinha pintado o cabelo e as brancas que eram tantas, tantas, ainda a tornavam naquela velhota que ela não sentia ser quando não se via ao espelho… Umas olheiras horrorosas, papudas e marcadas. Claro que também não estava nos seus dias melhores, mas ainda assim, ela de alguma forma não conseguia perceber como o corpo se deteriorava tanto e… apesar de toda a “insanidade e loucura” da sua mente não se sentia assim tão velha…


Voltou para a cama. Havia momentos em que gostava de desligar o pensamento. Ficar em silêncio absoluto, sem se ouvir sequer. Disseram-lhe que a meditação proporcionava esse momento. Ainda não tinha tido vontade, fé de experimentar. Um dia destes provavelmente, fá-lo-ia.

quarta-feira, 11 de março de 2015

"Na forja"

Madalena é divorciada duas vezes e, tem dois filhos, ambos do primeiro marido. Com os filhos já adultos, Madalena sente necessidade de viver, como ela diz, intensamente.

Eva adorava a maneira de ser de Madalena e, por vezes… muito de vez em quando, queria ser como ela. Sim. Eva adorava Madalena mas achava, curiosamente, que ela era demasiado carente e filtrava muito pouco as suas necessidades. Já ela era efetivamente muito carente e apesar do seu problema, filtrava muito bem as suas carências (achava ela).

Hoje, Eva tinha aceitado a possibilidade de nunca saber o que era ser amado, desejado e aceite, assim mesmo, com defeitos acima de tudo, por alguém. (Se bem, que lá no fundo, bem lá no fundinho Eva achasse que isso ainda podia acontecer…esperava ela, que não demasiado tarde…)

“Eva?”

“Sim, Madalena? Está tudo bem?”

“Sim, sim! Estive com o Zé… aquele tal… Quero-te contar tudo. Vamos lanchar ao sítio do costume, ok?”

“….hummm siiimmm…. Claro”

“Fica combinado! Beijos!”

Não havia nenhuma hipótese. Por vezes Madalena podia ser sufocante. Nessas alturas Eva ou tinha reuniões atrás de reuniões, ou estava adoentada ou… qualquer desculpa servia para se afastar da amiga durante algum tempo. Precisava de um intervalo da energia e da “prepotência” ou necessidade de controle… o que for mais interessante.

segunda-feira, 2 de março de 2015

"Na forja"

Lá ia trabalhar! “Tens que dar graças por teres um trabalho. Muitos gostariam e não têm. Blá blá” Aquela ladainha que muita gente falava, que não sendo mentira, nos incitava a ter padrões muito baixos de exigência tanto a nível profissional como pessoal.

Eva é uma mulher madura, solitária sem contudo ser amarga. Pelo contrário, é uma mulher afável, serena…

Nem sempre foi assim. Mas hoje é!

Eva é uma profissional exemplar. Cumpridora! Chega a horas, sai a qualquer hora e cumpre tudo o que lhe é exigido. Cumpre até o que não lhe é exigido.

Eva tem como principal prioridade na sua vida o trabalho. Não é casada, não tem filhos. Os pais já morreram e tem dois irmãos: Raúl mais novo e Amélia mais velha. Mas a relação com os irmãos foi sempre… complicada.

Eva sofre de um distúrbio pouco comum chamado TPB (transtorno de personalidade bordeline). Em miúda ninguém sabia o que ela tinha, mas trouxe-lhe muitos problemas, na vida familiar e claro na vida social. Há já alguns anos que tem vindo a ser seguida por um psicólogo e psiquiatra.

A melhor amiga de Eva é Madalena.


“Eva amanhã vou-me encontrar com o Zé!” Eva olhou para ela surpreendida e curiosa “Eu conheço?” “Claro que não! Nem eu o conheço pessoalmente, quanto mais tu. É aquele último com quem tenho falado online” “Ah” exclamou Eva. Madalena era uma mulher super sociável, um pouco mais velha que Eva, mas com uma energia e uma garra para a diversão impressionante. Quase sempre que alguém as conhecia ficava impressionado com a diferença de personalidade entre as duas e como podiam ser amigas.