quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Berny

No choco o dia todo. Domingo. Telefone desligado, tudo desligado… eu inclusive.

Monday! Trabalho. Descansei, acordei cedo e pus-me impecável como se tivesse um fim de semana 5 estrelas. Uma grande parte da nossa vida miserável, é um faz de conta. O resto é solidão.

Ando cansada, saturada, desmotivada e descrente.

Não sei bem quem sou e o que sou. Se quero agradar a mim ou aos outros… ai não sei…

Meti-me no carro e tentei parar de pensar. Tenho que trabalhar, ponto. E lá fui.

“Sabes alguma coisa da Berny? Não chegou ainda e não disse nada… não é normal.”


No dia seguinte, quando Rui chegou e foi o primeiro a saber a noticia: Berny tinha morrido num acidente de viação brutal!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Berny

Ai! Estes nossos papéis tão confusos e mesclados, que me baralham e criam conflitos internos que depois dão no que dão. 

“Sim Manel, que se passa?” Ele já me tinha ligado duas vezes. “Vamos simplesmente deixar de falar?” “Manel, eu sei que és um homem inteligente. Eu já te pedi um tempo e se me respeitas, dá-me esse tempo. Deixa de me ligar por favor” Seguiu-se um silêncio constrangedor e depois quase em sussurro “Não te volto a contactar Berny. Adeus.”

Estávamos num bar, Sean e eu, ao fim da tarde, a conversar, quando a vejo entrar. Estava exatamente igual. Quando ia desviar o olhar para fingir que não a tinha visto, os olhos dela fixam-se nos meus. Senti um murro no estômago e o coração a bater muito depressa. Aproximou-se. 
“Olá Berny” Sempre com os olhos fixos em mim baixou-se e deu-me um beijo nos lábios. Depois olhou para Sean, esticou-lhe a mão e “Olá, sou a Sara!” Eu estava paralisada. Sentou-se e voltou a olhar para mim. “Já faz algum tempo que não nos víamos.” Finalmente consegui falar “Sean, é uma amiga de longa data. Sean é um amigo especial” Ela sorriu “Foste indecente nunca me atendeste o telefone, não me respondeste a nenhuma mensagem. Não achas que merecia pelo menos um adeus conversado?” Não estava à espera que abordasse o assunto assim cruamente, mas recompus-me. “Sim Sara tens razão, poderia ter sido mais simpática, mas não soube lidar muito bem com a situação. Apesar de tudo Sara, nunca houve um compromisso.” Sara estava com o sobrolho franzido “Poupa-me à tua condescendência. Os compromissos nem sempre se verbalizam, estão implícitos e o respeito mais ainda. Sê feliz!” Levantou-se e foi embora.


Sean percebeu muito pouco da conversa, mas o diálogo físico foi bastante esclarecedor. Eu fiquei bastante chateada. Cancelei o programa com Sean e fui para casa… sózinha.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Berny

Quando falava ele escutava e percebia sem enfado nem insatisfação. Olhava para mim o tempo todo. Partilhava com ele tudo, o significante e o insignificante. Não sei se alguma coisa “lost in translation” mas de facto Sean era um upgrade, update, era a “shining” no meu mundinho normal e português.

Isto, uma semana. Na segunda, uma nuvem volta a pairar no meu horizonte: Manel! Nuvem negra é o que estou a chamar a Manel que até à pouco era o homem mais interessante e inteligente na face da terra. E é… ainda. Para mim neste momento, é um simples rascunho. É um homem com família, cheio de indecisões, com culpas e bagagem que eu não quero partilhar. 

Sean por seu lado, pelo menos até onde conhecia, não tinha nada disso. Acima de tudo ainda não tinha a minha alma!

Sean era um momento. Seria apenas uma boa recordação na minha vida.


Eu realmente não era muito boa nesta coisa de relacionamentos. Ou os homens eram casados, ou muito novos ou… sei lá… parecia nunca conseguir “atinar”. Eu nem sou exigente: quero alguém que goste de mim do jeitinho que sou, o bom e o mau. Que me faça sentir segura e protegida… sim pode não ser o sentimento que melhor define uma mulher independente, autónoma, “segura”, enfim uma mulher moderna, mas é o que é. Claro que é fundamental que ele me seduza e tenha sentido de humor. Quão difícil isto pode ser? 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Berny

Cínica? Cética? Acho que apenas realista.

A telefonista ligou-me dizendo que havia uma pessoa à minha procura no hall de entrada.

Subi! Sean???!!!

Completamente atónita, fiquei especada defronte dele sem nenhuma reação física, aparente. 
Ele esboçou mais que um sorriso a olhar para mim e abraçou-me. “Estava por perto, decidi dizer olá. Espero não ter sido inconveniente…?” Depois deste minutos sem dizer palavra, exclamei “Claro que não!” “Estás com uma cara…” e riu-se “Eu queria que fosse uma surpresa, não um choque.” Ambos demos uma gargalhada. “Desculpa, mas é um choque. Como me descobriste?” “Então? Sou um jornalista de investigação. Descubro coisas… e por acaso estou aqui em trabalho e pensei juntar o útil ao agradável” Sorriu. “Podíamos jantar esta noite se não tiveres nenhum compromisso.” Olhei para ele. 
Tão refrescante. Jovem, seguro, alto, enfim um adónis humano. E estava a convidar-me a mim “jovem cota” para jantar com ele. “Hoje não posso, lamento mas já tenho um compromisso, mas amanhã se puderes, por mim está ótimo” “Combinado! Dá-me o teu nº de telemóvel para combinarmos melhor… “

No dia seguinte estávamos a jantar. Foi super agradável e claro acabei no quarto do hotel onde Sean estava hospedado.

Sean era para mim algo muito libertador. Não me sentia presa a ele emocionalmente, mas sentia uma ligação sem culpa e que me dava muito prazer. Sentia apesar de tudo que ele gostava genuinamente de mim, que lhe dava prazer estar comigo, em todos os momentos. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Berny

Não liguei de volta ao Manel, porque não me apeteceu. Ando confusa, chateada e só me apetecia estar novamente no Uruguai com Sean. Tudo simples e agradável. Tenho plena consciência que tudo é cíclico: o bom e o mau e portanto seria muito difícil estar sempre no bom. Mas isso não me faz querer menos, o bom.

Tenho momentos em que gosto, preciso de estar só comigo. Aquilo que os outros não vêm em mim, sinto eu em mim num  momento… É nesses segundos de vida em que sou: namorado, marido, amante, companheiro e amigo, tudo de uma vez. Sim é quando eu própria sou um ser completo e… me satisfaço. 

Mil coisas na minha cabeça, mas o foco é: no prazer! Ninguém melhor que eu própria para saber como lá chegar. Sem sentimentos de culpa, sem falhas, sem envolvimento… apenas a adrenalina de saber como, quando e onde chegar.


Nada invalida para mim a importância de um homem. Mas um homem é, e isso não nos ensinam na educação europeia, perfeitamente descartável. 

Ao fim de um tempo qualquer relação se torna obsoleta, sufocante e desinteressante. Mas temos que manter, custe o que custar, o faz de conta que temos um casamento feliz. A tão algemada cumplicidade… Tretas. O que conseguimos? 
Um negócio de partilha de responsabilidades, quando sim, e partilha de dívidas financeiras.