sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Berny

Enfim e a discussão continuava noite fora.

Mas nada disto me ajuda a pensar claramente… Tenho que me concentrar para que a conversa que vou ter com Manel seja calma e serena… e definitiva.

Estou dividida. Se por um lado gosto bastante do Manel, por outro ter a mulher dele, agora que já me conhece, a fazer-me emboscadas não é de todo o percurso que quero para a minha vida.

“Olá!” Sentei-me. Sorri. Nem sei bem se devia ter sorrido, mas… isto não é fácil.
“Olá!” Disse e olhou dentro de mim. Senti um arrepio e quis enfiar-me num buraco. Seguiu-se um silêncio, de 2 segundos, constrangedor.

“Manel, penso que tudo o que dissermos será inútil. Não quero continuar neste registo. Não é saudável, pelo menos para mim.”
“Achas mesmo que não há nada para dizer?” Olhei para ele expectante “Não pões a hipótese de eu me separar?” Fiquei atónita.

“Não! Nem é isso que quero, não quero essa culpa. Pelos vistos não é a tua primeira vez e provavelmente não será a última. E por favor Manel não insultes a minha inteligência. Este cenário é um cliché bem como tudo o que for dito neste contexto. Quero uma vida diferente, mas não é esta. Sinceramente Manel não estava à espera que fizesses isto.”

“Isto o quê?” Perguntou ele, com uma ingenuidade que me começava a revoltar.


“Que resistisses ao inevitável. Tenho que ir. Desejo-te tudo de bom e por favor, não me procures, não me telefones. Deixa-me ser feliz. Adeus!”

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Berny

Obviamente não podia, ou melhor não devia culpabilizar exclusivamente o Manel pela situação. Eu sou adulta e a partir do momento em que soube e aceitei que ele era um homem comprometido mas deixei “rolar”, era cúmplice da situação.

Em boa verdade era até um cenário bem confortável se não tivesse sido descoberta.
Várias vezes, em saídas com amigos, esse assunto vinha “à baila”. A infidelidade, a monogamia, etc.
Debatia-me sempre com os preconceitos de uma educação religiosa, as regras sociais e aquilo que no fundo eu penso que é efetivamente a minha convicção.
Muitas vezes estávamos até altas horas da noite a discutir.

“Somos animais e não somos monogâmicos. Esta sociedade tenta ao máximo castrar-nos. Não é por acaso que há culturas, ainda, que um homem tem várias mulheres…” Mário sorriu porque já sabia que as mulheres se iriam insurgir com esta afirmação. “Se não sabes Mário também há culturas em que as mulheres têm mais que um homem…” Maria fez uma careta. “ Sim, sim, uma para aí. Lá está, é a exceção que confirma a regra!”

“Eu não sei se é nossa natureza ou não. Mas verdadeiramente isso não interessa” “Como não interessa?!” Rui olhou para mim inquisidor. “Também é nossa natureza matar, e fazer muitas outras coisas que não fazemos, porque se acredita que é no controlo da “nossa natureza” que reside a diferença entre nós, os Fantásticos, e os animais.” Apesar do ruído, pois todos queriam falar ao mesmo tempo, continuei “Quando queremos, achamos muito bem criar valores, regras, educação, etc., quando não nos interessa, estamos a  “castrar” a nossa natureza… Somos tão incongruentes, tão hipócritas.””Berny tens que admitir que as regras são necessárias e a educação também, senão seria a anarquia, o caos” Fiz um olhar perplexo enquanto fitava Mário. Sorri e disse “Caríssimo lá está, incongruência…” e pisquei-lhe o olho.