sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Berny

Fui tomar um banho. Demorei horas. Quando saí já estava mais calma… A raiva que sentia era por mim, só por mim, por ter sido tão estúpida para me deixar envolver nesta ridícula e “lugar-comum” novela…

Senti-me humilhada e vulgar.


Manel ligou-me várias vezes e eu não queria protelar algo que devia ser terminado sem mais demora, no entanto precisava ainda assim de me organizar internamente.
Tanto caminho percorrido, tanta estrada calcorreada, tantos cruzamentos, encruzilhadas, acidentes, quedas e ainda assim consegui meter-me na mais velha questão de todos os tempos no que diz respeito a relações: a infidelidade, a mentira, a omissão, a manipulação… Sim e vai continuar enquanto o homem for homem e a mulher mulher e estiverem completamente presos neste invólucro.

Mas eu era independente, não pretendia nenhuma relação dita tradicional, era inteligente e… nada disso importou. “Espalhei-me” completamente!

Bom, vamos lá terminar com as lamúrias e pôr um ponto final nesta história.

“Berny”
“Olá Manel, precisamos de conversar. Estás livre hoje às 19h?”
“Sim” A voz dele estava lenta e baixa.

“Podemo-nos encontrar no “Ritos” a essa hora?”

“Sim, combinado”

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Berny

Manel tinha mais 10 anos do que eu. Os mais novos já me achavam muito velha. Gostavam delas mais novinhas para aumentar a sua virilidade. Devia ser por questões “hormonais masculinas”. Provavelmente o Manel também… Eu gostava mesmo de desafios. Já tinha perdido a esperança em ser mãe, esposa, enfim ter uma família.

Estava eu (mais uma vez) no bar a rever alguns apontamentos e de repente “Berny?” Olhei e vi uma mulher madura, bonita mas… digamos normal. “Sim???” Sentou-se. “ Sou a mulher do Manel, Patrícia!” Fiquei perplexa a olhar para ela. Não sabia muito bem o que responder… “Já estou habituada aos “casos” do Manel. É professor e teve alguns. Eu sou o denominador comum. É para mim que volta sempre. Para mim e para o filho.”

Se houve algum momento em que me quis tornar invisível foi naquele momento. Por leves segundos.


“Patrícia certo? Eu não a conheço e parece saber mais de mim que eu de si. É sem dúvida uma situação constrangedora, mas creio que se tem assuntos por resolver com o Manel é com ele que deve falar.” Pequei nas minhas coisas, levantei-me e disse “Com licença, tenho trabalho para fazer”. Ela ainda disse um pouco alto “Vocês julgam todas que são muito boas, coitadas!”

Fiquei em estado de choque. Nem sei bem porquê. Sendo ele comprometido…
Cheguei a casa pousei a carteira, as chaves e fui à cozinha beber um copo de água. Acabei de o beber e fiquei parada, completamente paralisada a olhar para a parede da cozinha. De repente dei um grito e atiro o copo que se estilhaça contra a parede. Atiro com mais umas coisas e desato a chorar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Berny

Fiquei espantada. Ele tinha feito uma declaração de amor. Uma declaração de amor à minha pessoa.

Devia estar com uma tal cara de idiota pois ele de repente desata às gargalhadas.
“A tua cara!” E ria-se.

“Ainda bem que levas tudo com leveza e sentido de humor! Eu só soube muito depois que estás… SEPARADO, que me diz apenas que estás a dar um tempo… não me parece que possas fazer exigências e bradar aos sete ventos que tens sido claro e honesto. Mas isto sou eu, Mulher! Sinceramente Manel estou confusa… tem acontecido muita coisa que eu não tenho conseguido controlar.”

“Que diferença pode fazer o estar casado, separado, divorciado ou viúvo? Não vai mudar o que sentimos um pelo o outro…vai?”

Olhei para ele. Irritava-me a lógica dele e os meus preconceitos morais…


Era verdade! Já tinha tido vários tipos de atração, mas sem dúvida esta era diferente… era mais como… um todo! Completa e saciável! Ele estimulava-me física e intelectualmente o que tornava o prazer… inigualável. Eu diria que seria aquilo que um dia, uma amiguinha minha me disse ser, «uma sedução mental»: rouba-nos o físico e preenche-nos a “alma”!

Resumindo acabamos por fazer as pazes!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Berny

Era quase inevitável encontrar o Manel mais cedo ou mais tarde.
Ficou parado a olhar para mim, intensamente com um leve trejeito de censura e deceção.

Apesar de constrangida enfrentei aquele olhar e sorri. “Olá!” disse.
“Olá!” respondeu surdamente. “Precisamos de falar. Vem comigo!” “Sim precisamos, mas agora não posso, tenho…” Não me deixou terminar. Aproximou-se e disse-me, baixo, firme e claro “Agora Berny, agora!” E afastou-se. Ainda hesitei, mas achei melhor segui-lo, pelo sim, pelo não, preferia que não houvesse testemunhas de uma eventual discussão.

Entramos numa sala. Fechou a porta à chave e ficou parado com a mão no puxador. Eu não sabia muito bem como era o Manel nestas situações, era a primeira e provavelmente a última, portanto estava apreensiva.

“Manel eu sei que estás chateado, mas tem acontecido…” Virou-se. Não sei como descrever o olhar, as feições naquele preciso momento. Não sabia muito bem se devia continuar. Caminhou em direcção à secretária que estava sala. Eu entretanto deixei de falar. “Estou a ouvir-te. Continua.”


“Estas-me a incomodar com essa atitude, não sei se deva ter medo…” Ele olhou-me supreso “Tens medo de mim??? É isso??? Porquê?” “Não não é isso. Há muita coisa a acontecer e preciso de um tempo para pôr as ideias em ordem. Eu também tenho uma vida para além de ti.” “Nunca duvidei. Mas ao contrário de mim tu sabes e sempre soubeste como era a minha vida. Não te escondi nada. Sempre que acho que alguma coisa deve ser falada, falo.” Não viro costas e deixo de dar notícias ou de atender chamadas, enfim… Ouve Berny, seja o que for que se passa mereço e exijo que me digas em que pé estamos. Não quero parecer um garotinho apaixonado e ansioso por notícias da amada.”