sexta-feira, 21 de março de 2014

Ondas de iluminação...

Caro Pedro
Custou-me tomar a iniciativa de lhe escrever, acima de tudo pelo desprezo com que me trata e a todos os portugueses, ou melhor, quase todos.
No entanto como nada tenho a perder e me sinto tão mal, tão triste, tão violentada e tão impotente, não me resta senão dizer-lhe o que me apetece…
Não acredito que para si vá fazer alguma diferença ou que algo vá mudar, não só pela razão que enuncio acima mas também pelo facto do Pedro ser um daqueles seres que realmente se acham “especiais e iluminados”. Fico SEMPRE estupefacta quando o ouço ou leio algo que disse. Sempre com a mesma convicção, com a mesma seriedade (que a mim, inicialmente, ainda me fazia rir, mas que agora só consigo sentir um PROFUNDO desdém, desprezo e revolta) de que realmente é um ser superior e que está a fazer o correto (vá-se lá saber para quem e o quê). A qualquer outra pessoa chamar-lhe-ia ESTÚPIDA, a si penso que não é essa palavra que o pode descrever, pois creio verdadeiramente que os estúpidos somos todos nós que permitimos que esteja aí nesse poleiro “a cantar de galo”.
Também lhe posso garantir que eu não sou dos casos piores… no entanto aqui vai.
Sou mulher, portuguesa, tenho 50 anos e comecei a trabalhar aos 16. Vim de uma família que posso considerar de classe média sendo que a classe média também se divide numa trilogia (sabe?). Adiante… veio o 25 de Abril, tinha 10 anos e só aos poucos ao longo dos anos fui percebendo a importância desse dia e o que representou para os portugueses. Posso no entanto afirmar que senti que era um dia muito importante, se calhar porque os meus pais me transmitiram aquela sensação de que algo bom estava a acontecer.
Apesar disso a minha família ressentiu-se financeiramente e eu tive que começar a trabalhar aos 16, sem contudo deixar de estudar totalmente. Nunca me senti violentada por ter que o fazer tão cedo, foi quase natural. Fiz de tudo, vendi livros, fui babysitter, empregada de balcão, etc. . Como referi continuei a estudar e tirei o que na altura era considerado um curso profissional, que dava acesso a uma carreira que só existia na função pública. O meu destino estava traçado. Só podia ser funcionária pública. (Não fazia ideia da perseguição, violentação, violação ostracização que iria sofrer pelo simples facto de querer trabalhar numa biblioteca e beber cultura sempre que pudesse!)O curso chamava-se “Curso de técnico auxiliar de bibliotecas, arquivos e serviços de documentação”. O meu destino: uma biblioteca, um arquivo ou um serviço de documentação.
Quando terminei fiz um estágio de 6 meses na Biblioteca Pública Municipal do Porto que adorei. Depois fui concorrendo a concursos públicos abertos para a área. Convém dizer que não se entrava para bibliotecas, arquivos ou serviços de documentação se não se possuísse esta especialização. Entrei finalmente para a Faculdade de Medicina da UP para auxiliar técnica de BAD (biblioteca, arquivo e documentação) estive lá pouco mais de um ano. Concorri de seguida para técnica para a Faculdade de Letras da mesma universidade para a biblioteca central, onde estou há 26 anos. Nesse tempo tive 3 filhos, fiz uma licenciatura, várias formações, workshops, “upgrades”, sempre com o intuito de me manter atualizada e à altura dos desafios que se vinham constantemente a desenvolver. A minha carreira entretanto passou de especializada para uma coisa sem especialização se bem que a necessidade de especialização se mantenha e passou de técnica profissional especialista de bd (biblioteca e documentação) para assistente técnico. O meu ordenado tem vindo a baixar escandalosamente, as dívidas que contraí (comprei uma casa quando casei e que mantenho depois do divórcio uma vez que fiquei com três filhos) e que hoje se torna insuportável, pois sustentar 3 filhos uma casa e tentar não estupidificar ao longo de todos estes anos tem sido difícil.
Quando investi numa licenciatura com o objetivo de melhorar a minha situação profissional, financeiramente e desenvolver novas habilidades com as ferramentas que a mesma me ia dar, não sabia que passado 4 anos iria estar bem pior do que quando entrei para Medicina para assistente técnico de bad em 1987.
Apesar de não ser muito mais novo Pedro, acredito que nessa altura andava ainda à procura do que podia fazer para se divertir, não Pedro?
Veja lá onde está! Veja lá onde estou!
Quero dizer com tudo isto que estou cansada de lutar por manter a minha sanidade, a minha integridade, a minha família com algum conforto. No entanto com a brutalidade dos cortes que está a fazer e que tenho a certeza de que são ilegais, com a perseguição que faz aos pequenos funcionários públicos como eu, vai ser difícil sequer manter um teto onde poder aquecer-me e aquecer os meus filhos que apesar de 2 deles serem adultos, com o país “fantástico” que está a criar nem empregos vêm num horizonte próximo.
De certeza que vai ficar na História, pelas razões piores mas também me parece que um homem que não faz ideia do que é a vida lhe possa interessar pouco as razões pelas quais fica na História.
O seu desprezo é o meu desprezo por si e pelo seu “trabalho”.

Só mais umas palavras para todos aqueles que por medo, por maldade, por arrogância, por estupidez o têm ajudado a delapidar o que ainda restava de alguma dignidade social neste país da treta: o futuro não é vosso!


“Entre nós tem-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegámos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos do futuro e do desconhecido que cada acerto, cada bom acerto é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecusável verdade.”

Eça de Queirós, in 'Últimas Páginas'