segunda-feira, 28 de maio de 2012

Baralhada

E se as nossas memórias puderem ser alteradas?
Faria toda a diferença? Alguma? Nenhuma? Continuaríamos a ser nós?
Se já se pode induzir uma pessoa em coma, fazer transplantes de coração, escolher o sexo do nosso bebé, porque não mudarmos as nossas memórias?
Pergunto-me: se mudasse as minhas memórias e, em vez de me lembrar dos meus pais me lembrasse de outros, e de outra infância e de outros irmãos, provavelmente não seria quem sou neste preciso momento. Claro que teria que lidar com as memórias recentes… era capaz de me dar um nó… não sei… No entanto é curioso como afinal o cérebro apesar de ainda ser um enigma, ser ao mesmo tempo, tão manipulável, quase como um mecanismo analógico em que as ligações de um fio podem alterar todo o seu funcionamento ou, se quisermos mais atual, como um computador com um novo software, ou um novo sistema operativo e depois tudo muda, comandos, teclas enfim…é só reiniciar!
Começo a preocupar-me com a possibilidade de ninguém ser verdadeiramente alguém.
Já somos fruto da educação, do social, da televisão, dos média, da publicidade… como não bastasse podemos ser fruto de novas programações.
Por mais que me questione sobre este assunto realmente não consigo chegar a lado nenhum. Não, que não entenda, que a manipulação é a melhor forma de ter poder, mas para quê? Num sítio em que tudo é efémero e que nada nem ninguém parece já ser quem parecem ser, que valor pode ter isso, da manipulação?
Pois, é um nó! Porque me questiono sobre estas coisas? Nem eu sei bem! Será que com o prazo de validade a esgotar-se, os fios começam a desligar e, eventualmente, começo a ser quem era? Ou será, simplesmente que com os fios a desligar, estou a baralhar? 

domingo, 20 de maio de 2012

Eu e o meu sofá

Eu e o meu sofá.

Somos como unha e carne. Adoro o meu sofá.
Ao contrário daquilo que as pessoas dizem, eu acredito que não teremos tempo nenhum para o descanso nem para coisa nenhuma, quando chegar a hora. Por isso aproveito o meu sofá para ter uma cumplicidade única. Descanso fisicamente, mentalmente, choro, falo, como, bebo, enfim faço quase tudo no meu sofá. Criticam-me por isso. Dizem que devia passear, sair, estar com pessoas… Isso é o que faço normalmente e do qual descanso junto do meu sofá.
Ali posso ser simplesmente eu. Partilhar o bom e o mau, sem críticas, acusações… posso viajar sem sair do sítio, ou porque vejo um filme, ou porque ouço uma canção ou porque simplesmente sonho… acordada ou a dormir.
Ah! O meu sofá. 
Posso sempre trocar de sofá, que não há despedidas dramáticas, nem saudades estúpidas, nem arrependimentos. Não há choro, apenas o que tem que ser quando tem que ser.
Levo para o sofá o que quero. Um livro, o verniz, o telemóvel, o computador e entrego-me a essas tarefas sem culpa, sem stress, simplesmente….
Eu e o meu sofá.
Sim, eu e o meu sofá somos como aquelas frações em que há sempre um denominador comum: Eu, e o numerador que vai mudando: o sofá. Há melhor relação? Uma em que podemos ser nós próprios, sem dor, sem emoção, sem sentimentos para enublar a vontade, sem repressões de preconceitos instituídos… Livre, livre!
Ah! Eu e o meu sofá.

sábado, 12 de maio de 2012

DeProfundis

Já há algum tempo que me demiti (temporariamente) da escrita e da leitura.

Finalmente  consegui ter um fim de semana! Apesar do muito trabalho doméstico acumulado pela falta dos mesmos, entre esperar que o chão seque e a próxima tarefa, um livro esquecido no tempo e que o meu filho mais novo  tirou da estante, chamou-me a atenção: De  Profundis – valsa lenta, de José Cardoso Pires.
Eu já sabia da razão de ser deste livro, ou o que lhe deu origem. José Cardoso Pires sofreu um acidente vascular cerebral bastante grave, mas que segundo ele, graças à inteligência e profissionalismo da equipa médica conseguiu recuperar maravilhosamente, de tal forma, que escreveu na primeira pessoa esse tempo que como ele tão bem ilustra “Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido.”
Há medida que a leitura fluiu as perguntas vão assolando a minha mente… minha mente, será? Minha? Mente?
Depois desta leitura questiono-me para onde vamos quando algum fio desconecta no cérebro? Onde esteve Ele quando o Outro tomou posse? Que fragilidade e precaridade de ser… Esta viagem em que nos leva Cardoso Pires é fascinante pelo facto de alguém que “…a desmemória não só o isolou da realidade objectiva como o destituiu, pode dizer-se de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque sem consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante.” Ter voltado a ser quem era e ter podido partilhar com os demais essa sua aventura.
Depreendo que só do desprendimento das coisas e de nós próprios poderemos encontrar a serenidade, pois de outra forma a vida torna-se angústia, tormento, dor… se tivermos consciência de quão precária e frágil a vida é. Por outro lado, se não houver essa consciência, a serenidade nem é precisa e a “felicidade” pode existir.
Não creio contudo que nos caiba a nós decidir qual dos caminhos percorreremos. Afinal parece ser tudo uma questão de, aquando do «nosso fabrico» termos sido bafejados por bons materiais e uma boa equipa. E ao longo do tempo da nossa «validade» os materiais terem tido uma boa resistência e, eventualmente, nas «revisões» que fizemos terem sido detetados atempadamente pequenas falhas. Parece que afinal, o destino, existe mesmo!