quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo:"Fui eu?";
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

...

-Estou?

-Ana? – ouviu do outro lado da linha uma voz masculina desconhecida.
-Sim… quem fala?
-Paulo Maciel. Conhecemo-nos no encontro de Open Acess na reitoria através da Carmo.
Ana procurou na sua fraca memória a informação pertinente sobre esse encontro.
- Ah sim. Como vai? Em que posso ajudar?
-Peço desculpa por a estar a incomodar mas a Carmo deu-mo o seu contacto pois cheguei de Coimbra e ela hoje não está cá no Porto.
- Sim, claro. Carmo disse-me que lhe tinha dado o meu contacto e que eventualmente me poderia ligar.
- Espero que não ache abusador mas poderíamos falar hoje à noite? Tomávamos um café ou uma bebida…
Ana não respondeu logo.
- Um café. Tenho um compromisso, mas posso tomar um café.
- Bom nesse caso poderíamos deixar para amanhã… se fosse melhor. Não quero atrapalhar…
- Não é atrapalhar mas de facto já tenho alguns compromissos ao longo da semana. E que tal ao final da tarde?
- Ok, pode ser ao final da tarde.
Combinaram as horas e o local.
Ana desligou e achou um pouco inconveniente da parte de uma pessoa desconhecida achar que ela tinha disponibilidade para ir tomar um café ou uma bebida, assim, em cima da hora; é até um pouco presunçoso. Bom, não queria estar a fazer conjecturas, até porque não sabia o que a Carmo lhe teria dito… ainda assim…

domingo, 11 de dezembro de 2011

...


28 Outubro 1961

Ontem houve uma manifestação contra a guerra no ultramar e a favor da demissão de Salazar. Como sempre não foi pacífica e houve mais prisões.
Não posso acreditar que vivo num país em que não posso expressar livremente a minha indignação contra a violência e a más condições de vida sem correr o risco de ser preso ou mesmo morto. Será que algum dia vou poder sentir a liberdade?

12 Novembro 1961

Estamos de luto! Morreu um camarada nosso, Cândido Martins Capilé, abatido por aqueles que nos deviam proteger, que deviam proteger a população em geral: a GNR.
Ao mesmo tempo que o meu medo aumenta também aumenta a minha revolta. Começo a achar que devemos partir para a violência porque parece que mais nenhum caminho nos leva a lado nenhum.
Já não sei…


 15 Novembro 1961

Estou de partida! Já no barco, e muito enjoado.
A despedida foi triste e um pouco histérica. Aminha mãe estava inconsolável. Os meus camaradas disseram –me adeus ao longe para não comprometer.
Não sei o que esperar … pode ter sido a última vez que vi rostos amados. Foi uma opção.
Faço parte de uma força de Fuzileiros Especiais. Vai ser duro, disso tenho a certeza. Vou parar, tenho que ir vomitar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

...

Já passava das duas da tarde, Ana tinha ido a casa almoçar. Em vez de comer qualquer coisa, esticou-se no sofá e adormeceu. Acordou e viu que estava atrasada. Na reitoria decorria um encontro sobre Open Acess em Bibliotecas. Lavou os dentes, penteou o farto cabelo apressadamente, pegou numa maçã e saiu.
A segunda parte já tinha começado. A sala estava escura e Ana que tinha vindo da claridade não vislumbrava nada. Optou por se sentar numa das últimas cadeiras.
Eram sempre muito interessantes estas ideias, o pior era conseguir passa-las do ideal para o real. Só por isso é que lhe custava estar nestas coisas, se bem que aprendia sempre alguma coisa…
Há saída uma colega de outra biblioteca vem ter com ela.
- Ana!
Olhou e viu Carmo a dirigir-se a ela com um grande sorriso e acompanhada de um dos oradores.
- Olá Carmo. Não te tinha visto hoje. Correu bem, certo?
- Sim! Está a ser uma boa partilha. Ana – e apontando para o acompanhante – Paulo.
Ana sorriu e estendeu-lhe a mão.
- Muito prazer.
Ele estendeu-lhe a mão e sorriu também, mas nada disse.
- Paulo é um dos principais impulsionadores destes debates e claro, um dos principais oradores.
Ana olhou para Paulo um homem alto, com os seus quarenta, mas de cabelo já bastante grisalho e algumas falhas. Não sendo propriamente bonito era um homem atraente, com uma postura firme e máscula.
Seguiram-se mais uns minutos de conversa da treta e mais encontros com algumas pessoas que Ana conhecia, trocaram-se algumas impressões e o evento chegou ao fim. 

7 de Outubro de 1961

Na rádio ouviu-se o discurso do embaixador português em Angola, Venâncio Deslandes no qual dizia terem acabado as operações militares e iniciado as operações policiais. Poderíamos depreender que as coisas começavam a acalmar em Angola no entanto, Mário disse que isso não era verdade. Que a resistência se mantinha e a luta armada ainda estava a começar.
Eu partirei em breve, dia 14 de Novembro.