domingo, 27 de novembro de 2011

Troika

Na actual conjuntura creio que haverá um número pequeno de pessoas que não pensem, discutam e reflictam sobre o estado actual, não só do país, como do mundo.

Eu tenho momentos de grande frustração e revolta e, dificilmente consigo perceber que possa, eventualmente, não estar a ser justa. Não me parece fácil em muitas circunstâncias estar na “pele do outro” mas procuro, sempre, olhar os vários lados da questão. Provavelmente nem sempre consigo, mas vejamos… é complicado.
Então, sempre me disseram que o exemplo vem de cima e em parte é nisso que assenta a educação que dou aos meus filhos. Não posso exigir se não o fizer. Claro que nesta relação existe o AMOR, algo que complica e descomplica tudo, mas que me obriga a ser muito mais tolerante e generosa, mas também mais exigente e disciplinada.
Tenho três filhos, todos a estudar e sou divorciada. Não me lembro desde que tenho filhos de ter um mês em que não contasse os tostões e, obviamente depois do divórcio, isso agravou-se.
Não me lembro de uma férias em família, onde pudesse desfrutar apenas da companhia da família, sem pensar nas roupas para o dia seguinte, almoço e jantar, etc. Depois do divórcio há 11 anos, pior. Sim há pessoas pior que eu, é um facto, e por isso devo cruzar os braços e dizer paciência, tem que ser?
Então vejamos o primeiro-ministro que é um homem da minha geração mas que provavelmente trabalha há menos tempo que eu, porque eu comecei aos 16 anos, diz a propósito das férias: «Vou agora estar uns dias com a minha mulher e as minhas filhas para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias. Procurarei aproveitar intensamente o tempo disponível: afinal é nas situações mais simples que podemos encontrar os momentos de maior felicidade
Eu nem sei se vou conseguir manter os meus filhos a estudar quanto mais a recuperar o meu papel de mãe e pai. Óbvio que no final de um ano de trabalho nada melhor, nem que seja só uma semana, poder relaxar e descontrair junto daqueles que amamos. Parece-me justo para todos mas só alguns o podem fazer!
Quanto a este ódio que se tem vindo a instigar contra os funcionários públicos (e eu sou funcionária pública) é algo que desde que existo sempre aconteceu. Quando acabei o liceu não sabia muito bem o que queria fazer até porque a partir do 10º ano já era estudante-trabalhador e como tal perdia-me na realidade das obrigações do trabalho e no idealismo de uma vida de estudante. Resolvi tirar um curso técnico-profissional, muito pouco usual na altura, e que me abriu as portas ao funcionalismo público. Trabalhar na função pública nunca foi questão sine-qua-non no entanto o trabalho para o qual me preparei só era feito em instituições públicas: Bibliotecas.
A função pública é como qualquer empresa: tem coisas boas e más, bons e maus empregados, bons (poucos, muitos poucos) e maus gestores (montes). No entanto ao contrário daquilo que nos fazem crer os verdadeiros MAUS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS têm sido SEMPRE os gestores de Portugal, vulgo políticos, que aliás nunca se vêem como tal e prova está nas fantásticas afirmações do primeiro-ministro, que me repugnam e me enraivecem literalmente, quando afirma que «temos que EMPOBRECER».
Temos? Quem? Ele não é de certeza que mantém o mesmo nível de vida a que sempre esteve habituado. E com certeza não são essas empresas, sociedades, associações, que têm milhões de dívidas para cumprir e que são perdoadas, ou esquecidas como manda a boa corrupção e demagogia da política portuguesa e dos políticos portugueses, como bem se pode constatar do caso da Madeira e daquele energúmeno indivíduo que mantém o poder independentemente das barbaridades que diga e faça. A democracia na sua plenitude!
Enfim tanta coisa que nos passa ao lado, a nós comum cidadão, e que somos apenas manietados, manipulados e seduzidos pelas alegações de pseudo-patriotismo, pseudo-honestidade, e total lirismo: «Mas também julgo que restam poucas dúvidas quanto à nova forma de fazer política e de nos relacionarmos com o universo civil da nossa sociedade: queremos transmitir o que fazemos e por que o fazemos. Achamos que é de elementar justiça prestar contas ao País, quando, afinal, estamos a trabalhar e a gerir o dinheiro dos Portugueses. E queremos que a Sociedade Portuguesa mude de vida para encontrar um rumo de prosperidade que nos permita, a nós e aos nossos filhos, olhar para o futuro com confiança e optimismo. Essa é a razão última deste enorme esforço, deste nosso desafio
Enquanto direccionamos a nossa raiva uns para os outros, não focamos energias na melhor forma de luta contra esta maldição, nem contra o Estado.
O exemplo vem de cima. Quando esses senhores não tiverem benefícios extras (carros, alojamento, etc., já ganham muito bem!), nem subsídios, e tiverem que dispensar a empregada e sujeitarem-se a apenas a um CHORUDO ordenado, talvez possamos acreditar que a crise é para todos.
Eu pago as minhas dívidas não tenho que pagar as do país. Eu tenho gerido o meu capital da melhor forma que sei e posso e tenho cumprido. NÃO ADMITO QUE ME EXIJAM O IMPOSSÍVEL! EU NÃO PAGO MAIS! 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

...

Ambos reagiam à defesa sempre que o outro tentava passar a fronteira do impessoal e entrava no terreno movediço e frágil do pessoal.

Nunca se imaginou assim, numa relação…mas havia tanta coisa que não tinha imaginado (nem imaginação tinha para tal) e pela qual já tinha passado, que começava achar natural o inimaginável.
- Ok. Mas se calhar podias partilhar as tuas descobertas… eu também estou curioso e gostava de saber a história…
- Quando acabar de ler, quem sabe… talvez te deixe ler. Nem olhou para ver a reacção. Saiu e foi arrumar o livro.
Quando voltou Mário já estava praticamente vestido. Olhou-o com algum espanto, procurando no entanto não dar a perceber.
- Já vais? Disse numa voz pouco natural pelo esforço que fez de não deixar transparecer nenhuma emoção.
-Já. Acho que por hoje já tivemos conversa que chegue. Pelos vistos esgotei a tua capacidade.
- Que queres dizer com isso?
- Ana, sabes que não somos bons a dialogar! Fiquemos por aqui. Fui.
- Bem, pela tua capacidade usávamos linguagem gestual e telepata… se existisse. Ok vai.
Ele foi. Nem para trás olhou. As vezes que tinham tentado dialogar tinham sido sempre assim, duas frases pouco simpáticas cada um e, pronto. Não pareciam dois adultos já maduros, antes duas crianças embirrentas. Na realidade só podia ser o seu desespero a aceitar tal relação e provavelmente o dele.
Ana foi buscar o livro e meteu-se na cama.
5 de Outubro de 1961
Têm vindo notícias bastante assustadoras de Angola. Imagens horripilantes, massacres indiscritíveis que os média constantemente exibem para nos obrigar a estarmos do lado do governo. Manobras políticas e de manipulação da opinião pública.
Na verdade, conseguem incutir-nos medo. Eu ando completamente assustado. Não porque ache que eles não têm direito a lutar pela sua liberdade, mas pela forma como tudo se está a processar. Esta violência que nos torna muito mais animais e que nos despe de qualquer sentimento e emoção de simpatia, benevolência, compaixão, solidariedade é assustador.

Como diz Mário, não nos podemos deixar influenciar. Até porque ninguém sabe ao certo o que há de verdade nas notícias e de como realmente se está a desenrolar todo este processo. Mais logo vamos reunir e agendar a minha preparação e  a de mais dois camaradas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A história de uma abelha

Às vezes gostava de ter cristalizado em mim a capacidade de acreditar que a vida é uma história bonita, com alguns sustos mas onde tudo acaba bem. Gostava de manter a ingenuidade de uma criança, quando lhe contam uma história de encantar e ela deslumbrada, sorri o tempo todo.

Hoje quase acreditei que revivi por momentos esse estado de graça. Num dos canais nacionais passava um filme animado que o meu filho mais novo me “obrigou” a ver: A História de uma Abelha.
Era daquelas histórias sobre o ser humanos mas personificadas, neste caso, por abelhas. Uma abelha menos popular vira o herói corajoso, bondoso e altruísta.
Pese embora o meu cinismo mais ou menos constante nas virtudes humanas, não parei de sorrir enquanto a história não acabou. De quando em onde lá dizia “tão bonito!”, “oh tão querido!”. Sentia dentro de mim uma nostalgia e uma vontade de me deixar, por momentos, levar por aquela fantasia como se nada no mundo importasse.
Depois tentei perceber porquê a necessidade de acreditar no inacreditável. Percebi que é essa precisamente a razão: acreditar no inacreditável. Acreditar que algures em algum momento os homens serão esses seres que, desde que existimos falamos quase como figuras mitológicas, e que não conhecemos. Na realidade a única coisa que conseguimos é repetir uma e outra vez erro atrás de erro dos muitos cometidos pelos nossos antepassados.

De vez em quando surgem uns iluminados: Ghandi, Luther King, Nelson Mandela, Madre Teresa. Fazem a diferença num momento, noutro, são esquecidos.
Gostava de cristalizar em mim a inocência!