segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada

Miguel Torga

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

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3 Outubro de 1961

Soubemos que Eduardo já foi para o ultramar. Eu vou também. Alguns companheiros alistaram-se com o intuito de poderem fazer a diferença lá fora e quantos mais melhor.
Estou com medo. É a coisa mais difícil que já tive que fazer em prol da luta. Os meus pais não sabem, aliás ninguém sabe da família. De qualquer forma a tropa é obrigatória e eles estarão mais ou menos a contar.
Espero que quando for a minha vez, não vá sozinho.
Entretanto vou fazer uns treinos de tiro e não só. Eles acham importante, estarmos preparados. Não aconteceu o mesmo ao Eduardo porque é mais velho e chamaram-no antes de o poder fazer. Só espero que sirva um bem maior e não seja em vão que fazemos este sacrifício…

Ana saiu do quarto de banho com a toalha envolta no corpo. Mário estava ainda na cama, com o diário aberto. Olhou para ela e acenou com o manuscrito.
- Que é isto?
Ana aproximou-se e tirou-lhe o livro da mão.
- Não devias pegar no que não é teu.
Mário lançou-lhe um olhar de surpresa e crítica, abanando ligeiramente a cabeça. Ela encolheu os ombros…
- É um livro que estou a ler.
- Não é um livro qualquer Ana. Se não queres falar, tudo bem. Mas tenho curiosidade… e sorriu.
- Encontrei-o na biblioteca. É um diário que veio junto com uma doação. Como tu, tenho curiosidade. Não pelas tuas coisas, mas pelo que alguém escreveu numa altura interessante conturbada e polémica do nosso país, e muito próximo do nosso tempo.
Mário estava calado a olhar com aquele, meio sorriso de cinismo, implicitamente uma crítica ao seu tom de voz e achegas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

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Quanto a esta guerra não sei muito bem o que vamos poder fazer. Artur acha que este grupo pode estar já ameaçado. Eles infiltram-se (PIDE) sem darmos por isso. E cada vez temos mais cuidado, mas nunca é seguro. (...)

- Sim?
- Olá Ana. Ocupada?
- Não mais que o costume. Diz.
- Queres sair?
- Hoje não, obrigada. Estou cansada, fico por casa.
- Posso ir até aí. Conversamos um pouco…
- Ok. Até já!
Mário. Um amigo, daqueles coloridos, como lhes chamam. Alguém que preenchia mais um buraco na sua vida, sem o preencher. Provavelmente Ana fazia o mesmo efeito. Ou seja, tapavam buracos um ao outro.
Não se queixava. Divorciada, porque não era feliz no casamento, sem nunca mais sentir a paixão, o tremer de um encontro, um arrepio quando beijada, deixou-se levar pela necessidade de ter de vez em quando o calor de outro corpo junto do seu.
Sem emoção, sem receio, sem sentimento. Apenas um deixa rolar.
Mário já tinha dois casamentos na bagagem, e pelos vistos não tinha sido feito para relações. Por qualquer motivo tinha-se deixado ficar assim, nesta coisa, sem ser, sendo.
De alguma forma a indiferença, a descrença, a frustração que ambos tinham por relações, foi o que os juntou.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tempos modernos...


A conturbada situação que se vive hoje na terra é no mínimo absurda.
Na minha mente vejo-a como um funil: na parte mais larga do funil está o mundo, vai descendo e temos a Europa e finalmente na parte mais fininha Portugal, já fora do funil em pequenas gotas de… qualquer coisa temos a nossa realidade profissional.
Afinal a História não nos tem ensinado nada. Esses nossos líderes iluminados e cheios de arrogância e soberba, de pseudo-integridade, esses que do alto do seu poder e conforto se sentem no direito de EXIGIR sacrifícios pelas barbaridades que eles e outros como eles têm vindo a cometer impunemente contra os nossos direitos mais básicos de sermos humanos: liberdade, educação e saúde para todos sem raça nem credos. Esses mesmos que nos espezinham, não aprenderam NADA!
Há medida que avançamos no tempo e que somos assoberbados com a explosão do avanço tecnológico, com a “conquista” do espaço, somos também assoberbados pela soberba, pela mesquinhice, pela hipocrisia e demagogia.
«A vida merece algo além do aumento da sua velocidade.» Gandhi
No entanto cada um de nós também é culpado. Somos perfeitos instrumentos de manipulação e subjugação, com o nosso egocentrismo, o nosso medo e a nossa curta visão da vida.
Contra mim falo. Quero no entanto aprender. Quero poder construir um futuro melhor, com pessoas melhores, para as gerações vindouras.
«O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons» Martin Luther King
A vida tem um significado tão estranho. Vivemos com um medo terrível de morrer, quando é o que temos de mais certo na vida. Esse medo tolhe-nos. Por isso os jovens são fantásticos: arriscam, remam contra a maré, VIVEM SEM MEDO.
«Se um homem não descobriu nada pelo qual morreria, não está pronto para viver.» Martin Luther King
Quando um menos jovem vive assim chamam-lhe louco! Eu quero ser louca, SEMPRE!



«SEJA QUAL FOR O DEUS EU SOU O MESTRE DO MEU DESTINO E CAPITÃO DA MINHA ALMA» Nelson Mandela

sábado, 15 de outubro de 2011

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Era um novo desafio: saber mais sobre essa época.
A primeira coisa que descobriu é que a guerra do ultramar também chamada guerra colonial ou guerra da libertação, começou efectivamente a 4 de Fevereiro de 1961. Ou seja, há coerência temporal no diário, pelo menos no início.
Foi procurar relatos que lhe pudessem dar uma outra perspectiva, ou não, da guerra. Estava curiosa. Fala-se tanto em guerras e como o povo português é um povo de “brando costumes”, no entanto fizemos uma guerra que matou milhares de seres humanos. Independentemente de qualquer perspectiva, uma guerra nunca pode ser uma coisa boa, nem obter bons resultados. A violência gera violência. E o presente e as absurdas guerras que tem acompanhado à distância dizem-lhe isso.
Chegou a casa mais tarde que o costume. Esteve a consultar uns livros, bem como a fazer algumas pesquisas. Em casa perdia um pouco a “pica”. Muito silêncio e a casa muito vazia… Poder-se -ia dizer que era uma casa cheia de nada.
27 de setembro de 1961

A televisão anunciou que existem manobras em Angola com o intuito de pôr fim há violência. Se não fosse trágico até era cómico. Finalmente os autótones revoltaram-se contra os opressores. Nós aqui devíamos começar a fazer o mesmo. Mas as coisas ainda continuam muito sossegadas. Depois da “derrota” (através de acção fraudulenta) do General Humberto Delgado nas eleições, as pessoas ainda ficaram com mais medo. Acreditam, algumas, que nunca iremos conseguir mudar nada. Eu acredito que vamos conseguir…algum dia. Ele não desistiu, nem nós.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

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Reunimos novamente eram 19h. Eduardo estava nervoso. Era dos mais velhos e lutava contra o fascismo há já alguns anos. Tinha perdido alguns amigos, desaparecidos ou mortos. Ele achava que muitos estariam presos. Foi ele que nos disse que começara a guerra em Angola, depois de um golpe de estado. Que Portugal entrara a matar, ou seja, iria impor a força para valer o seu poder. Nós jovens da minha idade e todos os homens em idade militar iriam para lá.

Fiquei em choque. Primeiro porque não sou violento e depois porque “as guerras” que gostaria de travar, era aqui mesmo em Portugal, contra esta política absurda, que nos oprime, escraviza e silencia.
Começava a piscar os olhos do cansaço a vencer a curiosidade. Largou o livro em cima da cama e deitou-se.
Teve uma noite agitada. Não sabia bem qual a razão. Talvez a ansiedade de perceber onde a levaria esta nova descoberta ou apenas pelo facto de andar muito cansada.
Levantou-se à última da hora e a muito custo arranjou-se mais depressa que o normal, pois estava atrasada. Detestava andar a correr logo pela manhã, por isso preferia levantar-se cedo e andar nas calmas. O stress logo pela manhã era indicativo que o dia não ia correr bem.
Não conseguia deixar de pensar no diário. Não sabia praticamente nada sobre a guerra do ultramar, aliás sabia pouco sobre o tempo do fascismo. Tinha ouvido algumas histórias, a maior parte contadas pelos pais, outras foram sendo transmitidas ao longo da sua vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Lápide

Quando eu morrer e tu ficares sozinha,
Longe do bafo quente do meu corpo,
Tu a quem eu amei, sei lá por vingança
De Deus,
Nessa hora,
Olha serenamente a nossa história inútil
E chora...

Rega de pura mágoa a flor do «nunca mais»
(Sequer ao menos a flor do «nunca mais»),
E depois morde o chão seivado e semeado
Do místico perfume do meu sexo
Sepultado...

Miguel Torga

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A verdade é um lugar estranho... continuação


A propósito ainda da verdade ser um lugar estranho e de cada um de nós ter uma verdade única no sentido global do conceito, pergunto-me se a nossa existência se torna tão conturbada e complexa porque não conseguimos ver o nosso reflexo nos outros.
Passo a explicar. Cada um de nós tem uma ideia de si próprio. Na sua relação com os outros, cada um de nós, percebe que a ideia que tem de si mesmo não é coincidente, pelo menos algumas vezes na vida, com a forma como os outros nos vêem. Não falo da má-língua, do deitar abaixo só porque sim, nas humilhações a que somos expostos estupidamente vezes demais na vida, falo daqueles que amamos e daqueles que são importantes e da sua forma de nos verem.
Quando percebemos que aquele não nos vê como nós pensamos que fazemos? Mudamos? Limamos arestas? O que fazemos?
Esta é a minha grande dúvida. Claro que o senso comum dirá: ninguém é perfeito, deves ter a capacidade de mudar, limar arestas, etc. Mas se não me vejo assim, vou mudar só porque outros me vêem? Onde está o bom senso?
Claro que é precisamente isso que tenho feito tentado melhorar-me, mas também me tenho sabotado demasiado por achar que a opinião desses mesmos é importante e que se calhar eu é que estou errada.
É insegurança? Será! Aliás creio que me tenho sabotado toda a vida à custa de não ver o meu reflexo nos outros. Acima de tudo tenho-me sabotado porque não tenho orgulho em mim própria.
Quando o contrário acontece e estamos completamente indiferentes à opinião dos outros, podemos cair facilmente num egocentrismo e numa auto estima exacerbada. E acredito que isso será tão mau, ou talvez pior, porque esses não se demovem perante nada e só eles contam.
Assim, como ficamos nisto da verdade e qual o equilíbrio esperado? Será que a verdade é afinal aquilo que sempre achamos ser? Contrário da mentira, da ilusão, da má-fé?
Tenho dúvidas…

sábado, 1 de outubro de 2011

A verdade é um lugar estranho

A verdade é um lugar estranho.
Cresci a ter a certeza que a verdade só é, e só pode ser, UMA.
Há medida que o tempo vai passando sei que a verdade são muitas faces, muitas sensações e um infindável painel de cores.
As certezas de outrora começam a desmoronar e fica então o quê? Uma sensação de…perdição. Nada é o que parece.
Verdade=conformidade da ideia com o objecto, do dito com o feito, do discurso com a realidade diferente de erro, ilusão, mentira.[1]
Pois eu creio que a vida só por si é uma ilusão. No entanto não tem que ser algo mau, apenas estranho.
A verdade é um lugar estranho.
Há alguns anos atrás uma das minhas irmãs, numa das suas incursões na literatura, escreveu uma pequena autobiografia. A pessoa que ela descrevia como sendo eu, para mim, era uma completa estranha. Nunca me vi assim e nem imaginava que alguém o pudesse fazer.
Passado muitos anos numa conversa com uma tia, ela descreve-me a minha mãe, não como uma completa estranha, no entanto, com muitas verdades desconhecidas minhas e da minha mãe (que nunca considerei mentirosa).
Hoje os meus filhos descrevem-me como uma pessoa também, não totalmente desconhecida, mas estranha, na qual eu não me revejo na maior parte das situações.
Assim quem fala verdade? Quem mente? Quem se ilude? Quem joga de má-fé?
Acredito que ninguém. Cada um vê a verdade do alto do seu mundo e cada tem um mundo diferente. Cada um sente e experiencia atos, situações, discursos de formas diferentes sem as tornar menos verdadeiras ou reais.
A verdade é um lugar estranho!