quarta-feira, 28 de setembro de 2011

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Chegou a casa exausta. A casa vazia. Vazia como a sua alma. Há medida que o tempo passava e os filhos se foram afastando, ela sucumbiu ao vazio. Se calhar afastou-se do materialismo da sua vida, que preenchia um vazio… apenas aparentemente.
Era tarde e estava sem fome. Tirou o diário da saca, sentou-se no sofá e começou a ler. Não era o início de nada, mas sim uma continuação, o que queria dizer que devia haver mais diários. Tinha que ir procurar. Ainda assim resolveu começar a ler. 
21 de setembro de 1961
Hoje está um dia triste. Continua-se a ouvir comentários sobre a guerra que eclodiu em África, nas colónias portuguesas… estou nervoso… vamos reunir hoje às 10h da noite. Ninguém sabe nada ao certo, vai ser bom podermos esclarecer algumas dúvidas, receios… espero. Mais logo já saberei.

domingo, 25 de setembro de 2011

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Era a semana do turno da noite.
A Biblioteca com o seu horário extenso obrigava os funcionários a fazerem turnos.
Estava-se nas férias de Natal. O movimento não era muito. Ana foi arrumar alguns livros. Teve que ir ao armazém buscar “cantos”. Estava muito escuro naquela secção da biblioteca, Ana abriu a porta do armazém e tocou na parede no lado direito superior até sentir o interruptor da luz. Acendeu-o.

Grande confusão naquele armazém, cheio de pastas e livros, uns mais velhos outros mais novos… Não sabia bem onde encontrar os “cantos”. Começou a procurar… mas por aquele andar nunca mais o conseguiria. Tanto livro por tratar. Alguns já se desfaziam de velhos e dos maus tratos recebidos ao longo da sua existência. Foi tirando um e abriu, depois outro e mais outro. Até que se deparou um com capa dura e meia apagada dum cinzento bastante escuro e onde mal se distinguia o título e autor. Abriu e percebeu que se tratava de um manuscrito e não de uma obra publicada, talvez por isso não se distinguiam as letras na capa. Um diário. Seria da pessoa que os tinha doado?
Era frequente a biblioteca receber doações de bibliotecas particulares aquando da morte dos seus donos, pelos familiares, que se queriam libertar daquela imensidão de livros que foram os companheiros e companhia da pessoa que morreu. Pelo menos permitiam a que outros partilhassem do conhecimento imenso e rico que uma biblioteca particular pode ter, dado a sua diversidade, na maior parte dos casos.
- Ana? Estás aqui? - Zé Pedro o segurança chamava por ela, devia estar na hora do fecho da biblioteca.
- Sim. Desculpa, já vou, perdi a noção do tempo.
Sacudiu o pó do livro fechou e trouxe-o com ela. Estava curiosa.

sábado, 3 de setembro de 2011

África Minha

Caminhava pelo passadiço feito de tábuas na praia. Eram 8 horas, sábado de manhã. O tempo não estava frio. Apenas húmido e cinzento. Pouca gente se via. Caminhei pouco tempo. Fui e vim e não consegui descontrair-me, nem abstrair-me, nem nada… foi como se aquela caminhada fosse apenas mais uma tentativa falhada de evasão e tivesse servido apenas, para me cansar.
Na realidade eu queria cansar-me mas, queria acima de tudo libertar-me, livrar-me das inibições e medos que me acompanham, parece cada vez mais, dia a dia, segundo a segundo, mas não.
Quando cheguei a casa em vez de pegar no livro que estava a tentar ler “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” de Mia Couto, liguei a televisão e estranhamente coincidente estava a dar “África Minha”.
Digo isso porque são perfeitas descrições, visões… de África mas não só. São espelhos de vida!
Já vi várias vezes o filme, sempre em diferentes momentos da minha vida e talvez por essa razão, a mensagem que surge é sempre diferente, mas sempre fabulosa e impressionante.
Creio que é uma das melhores histórias sobre o SER que me foi dada a conhecer, ou talvez não. Afinal ainda há muita gente capaz de contar a vida brutal e intensamente.
Uma das notas, mensagens, o que queiramos chamar, é sem dúvida nenhuma perceber que nada possuímos e que efectivamente a vida é apenas uma jornada, feita de tanta coisa mas volátil e efémera. Não somos donos de nada. Nem de coisas, nem de pessoas e nem de nós próprios. Então porque nos esforçamos tanto por possuir e mostrar que possuímos?
No esforço inglório dessa tarefa a vida esvai-se em questões mesquinhas, no reforçar das nossas inibições, medos, preconceitos, angústias… enfim num número infindável de… nada.
Creio mais que nunca, olhando à nossa volta, que devemos… TEMOS que traçar efectivamente novas prioridades e novos objectivos a alcançar.
Só ouço em vender e comprar… saber vender um produto seja ele qual for (aliás parece que a máxima de Marketing é, mais que vender um produto, torna-lo necessário) para que seja comprado. Ou seja, POSSUIR está na ordem do dia.
Podem sim, chamar-me ingénua, estúpida, etc., mas é assim tão difícil ver o que vejo?
Não sei se o facto de ter nascido em pleno século XX e ter sido influenciada pelas lutas do início desse século, nomeadamente a abolição da pena de morte, a luta pela democracia, a luta pela “igualdade de direitos” independentemente do sexo, raça ou religião; já a meio, pelo Woodstock (peace drugs and rock), pelo 25 de Abril... e para o fim, apanhar com o desmoronar de todos esses direitos e perceber que essas lutas não foram suficientes para que cada um se mantivesse um SER. Surge a Europa Unida (a globalização), o euro e a castração global do indivíduo. As absurdas guerras em nome do PODER disfarçado de política, Alá, Deus… A bestialidade que toma conta de cada um de nós.
O século XXI surge vestido de negro.
Já não existem lugares sagrados. São sagrados se derem lucro ou poder.
O meu tempo neste tempo não será longo, mas que herança deixo aos meus filhos?
Adeus África Minha…