terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Orlando Ribeiro

- Oh menina, menina… diga-nos uma coisa. É que eu já tenho a cabeça a dar um nó.
- Ora diga então.
- Então o Sr. Orlando Ribeiro morreu?
…….
Eram quase 9h e há porta da Sala Orlando Ribeiro, já estavam, num sussurrar cúmplice, a D. Maria, D. Licínia e o Sr. Santos.
- Bom dia! Há algum problema?
- Não menina. Parece que vai haver aqui uma reunião?
- Aqui? Não sei de nada…
- É na Sala Orlando Ribeiro.
- Bom, então é mesmo aqui.
- É para pôr uma máquina de café…
- Esteja à vontade.
- Foi um senhor de barbas…
Olhei para ele e encolhi os ombros.
- Não se preocupe. Faça o que tem a fazer.
Ele insistiu
- É um senhor de barbas… Não sei se é o sr. Orlando Ribeiro…
Olhei para ele. Depois de um segundo, sorri.
- Não, não é. Orlando Ribeiro já morreu.
Sorri novamente. A falta de conhecimento resulta em coisas engraçadas.
Orlando Ribeiro é um famoso geógrafo português. “Dedicou toda a sua vida ao ensino e investigação em Geografia, e é a justo título considerado como o renovador desta ciência em Portugal. Foi também o geógrafo português do século XX com mais projecção ao nível internacional” http://pt.wikipedia.org/wiki/Orlando_Ribeiro  
Sendo a sala onde está sediado o Departamento de Geografia foi-lhe atribuído esse nome em homenagem a tão ilustre figura.
O Sr. Santos montou uma mesa improvisada com a máquina de café e umas bolachas e foi-se embora.
Logo de seguida entram as Donas Licínia e Maria.
Oh menina, menina, então o Sr. Orlando Ribeiro morreu?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Crê

Fui há Igreja.
Sozinha! Na penumbra de um espaço silenciosamente infinito, sentei-me.
Queria chorar! Não sei se foi a nostalgia de tempos passados ou se foi mesmo perceber que não acreditava já…
Quis rezar! Mas já não sabia fazê-lo.
Vi o Padre. Dirigi-me ao seu encontro. Ao passar a coluna vi que estava acompanhado da minha mãe. Sorri. Ele viu-me e sorriu.
Cumprimentei-os. Senti-me novamente a miúda de treze anos que frequentava a igreja, religiosamente, entre as actividades do CNE e a missa das 10h todos os domingos.
Deixamos a minha mãe e fomos conversar.
Com orgulho foi-me mostrar a Igreja. É nova, grande e actual.
Em que momento me desviei da “norma padrão”?
Porque perdi tudo o que me servia de âncora?
Sou um bote num mar revolto…



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Inferno de Dante

O Inferno de Dante!
A ficção que virou realidade.
Portugal o palco da Divina Comédia e as personagens? Todos nós! Lúcifer? Tantos…
Eu quero sair deste filme.
Este palco onde as personagens mais ignóbeis e ridículas que perante a realidade do inferno continuam a tentar atirar os outros para o meio das chamas, convencidos que não serão queimados apesar de estarem no Inferno.
A Divina Comédia de Dante não é cómica, mas a portuguesa é. Tristemente ridícula e cómica.
O tempo que se perde, dinheiro para se julgar uma pessoa que fala de sexo nas aulas com os alunos. Ao contrário, andam impunes e sem julgamento todos esses que nos “obrigam a tirar um curso para sermos escravos”; esses que impunemente põem e dispõem das nossas vidas tirando-nos dia após dia a dignidade, a capacidade de autonomia, o orgulho e vontade de ir mais além.
Privam-nos da capacidade de sonhar, de desejar!
Alimentam-se, esses parasitas sociais, corruptos, infecundos de acções e ideias que visem a efectiva melhoria das condições de se ser HUMANO, da nossa apatia, conformismo e idiotice.
Onde pára a Justiça na questão dos direitos humanos. Onde se julgam, esses, que todos os dias nos roubam isso?
Esses, que permitem que um ser humano faça da sua própria casa, o seu túmulo.
Esses, que perante os gritos das personagens no seu Inferno, empurram um “bode expiatório”, para o meio das chamas, alimentando a vontade de castigar e culpar alguém pelos seus próprios actos.
Tirem-me deste filme!
Não quero mais abrir o jornal, revista, ligar a televisão e ver o inferno a queimar o que resta da ESPERANÇA!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Acreditar

Estava a ver um vídeo musical em que dois jovens trocam promessas de amor. Uma das promessas é que, aquele momento, eles, manterão para sempre. E ela diz que não interessa o que acontecer, eles vão sempre ter aquele momento. Ninguém lhes pode tirar isso e é só deles.
………
Há medida que o tempo avança e a vida nos prega partidas, não podemos deixar de sorrir pelas certezas tão incertas da juventude. No entanto é isso que é bom. Cada coisa vivida no seu tempo e a vida é tão absurdamente igual… E realmente ninguém nos tira nada. Somos nós mesmo que o fazemos.
O tempo muda tudo. Até esses momentos que queremos eternizar em nome de um amor. Muda tudo “envenenando” a ideia que temos deles. Quando a um dado momento nos queremos agarrar à ideia de que foi um bom momento… só temos mesmo a recordação da ideia… a sensação efectiva daquilo que foi bom, não! Perdura sim a ideia. Vasculhamos, vasculhamos as razões que nos levaram num momento a acreditar que amávamos, que queríamos partilhar PARA SEMPRE…mas não conseguimos nos lembrar exactamente do porquê, ao contrário, só nos lembramos dos alertas que já tínhamos de que não ia dar certo.
Queremo-nos agarrar à perpetuação de algo, à eternização também… desesperados em busca do “Santo Graal” das nossas vidas.
Mas é bom que coisas boas possam, num momento, fazer sentido de tal maneira, que seja para sempre.
E é bom que não tenhamos a capacidade de matar isso nas gerações que nos precedem… ainda.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Divórcio

Carregamos as nossas opções e decisões o resto da nossa vida!
Não importa se foram boas decisões e das quais não nos arrependemos. Outros, que por razões diversas, foram tocados pelas mesmas, de uma maneira ou de outra, poderão não ter a mesma perspectiva sobre o assunto.
Como fazer acreditar que um divórcio pode ter sido a melhor decisão que tomamos? Como dizer e explicar isso a um filho? Como fazê-lo entender que não foi uma boa decisão só para uma das partes, mas sim para todos? Como fazê-lo entender que se a realidade fosse outra, seria bem pior?
Não me parece muito provável encontrar uma boa resposta.
A relação que mantêm com a outra parte é total e completamente diferente daquela que nós poderíamos manter. E os sentimentos que nos levaram a essa decisão continuam, ou se calhar até aumentaram. O desagrado, a repulsa e outros que tristemente assumimos e obviamente não são partilhados pelos outros envolvidos. E percebemos isso.
O problema é que do lado dos outros, filhos, não conseguem perceber isso.
O amor, essa coisa estranha que ainda vai valendo nas relações parentais…
E é por amor que o desespero se impõe porque fizéssemos a escolha que fizéssemos, esses seres pelos quais a vida só vale, saíram sempre a perder.
Por isso e só por isso, é que me posso arrepender de não ter conseguido desligar um botão que não serve para nada, apenas serve para me tornar irrequieta, transformar a minha vida num desassossego e num infindável rol de questões estéreis.
Podia ser tão fácil aceitar e dizer sim. Afinal que estado me tira deste incontornável processo de insatisfação?
Não é seguramente o de casada… nem o de divorciada…

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Um pacote de vinho

Quando saí hoje do trabalho o sol já não brilhava, como nos últimos dias. Havia um cheiro a húmido se bem que ainda não tivesse chovido. Meti-me no carro, agradecendo pelo dia terminado e pedindo que o dia seguinte fosse como este que finalizava e não pior.
Cheguei ao supermercado, entrei, olhei para o polícia que lá está todos os dias porque é uma zona complicada e fui buscar um carrinho.
Gosto de lá ir porque independentemente da zona é sossegado e pequeno. Concentramo-nos naquilo que queremos e precisamos mesmo de comprar e não há muitas tentações como nos grandes hipermercados cheios delas e de pessoas e de tudo o que nos pode corromper e não interessar.
Bom fiz a minha volta à procura dos produtos que necessitava e curiosamente, cada vez me isolo mais nestes pequenos percursos, rotinas de uma vida…
Fui para a caixa. Vinha uma mulher atrás de mim. Mal olhei para ela. No entanto quando estava a pôr as minhas coisas de volta no carrinho, olhei.
Pequena, cabelo muito curto como um homem, pela queimada e um ar profundamente miserável. Acabei de colocar as minhas coisas e paguei. Entretanto o caixa contabilizou as coisas dela: um pacote de vinho e uma garrafa de cerveja.
Voltei a olhar. Dois produtos em cima do tapete: um pacote de vinho rasca e uma cerveja...
Ela veio para o lado onde eu estava e o caixa pediu-lhe: 1,14€.
Muito atrapalhada disse com uma voz entaramelada: - já registou? Oh eu tenho que ir buscar… e saiu deixando atrás o pacote de vinho e a garrafa de cerveja.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Partilha

Gostaria como já disse de poder partilhar aqui neste espaço experiências para além das minhas.
Nesta jornada que é a vida e penso que é um conceito mais ou menos consensual, as nossas experiências são para ser partilhadas, melhor devem obrigatoriamente ser partilhadas. Não podemos ser constantemente surpreendidos pelo óbvio e pelo comum…

Como podemos evoluir, crescer, amadurecer e evoluir se não partilharmos? O bom, o mau, o percurso, a vida… sim, também temos que encontrar o jeito certo de o fazer mas é urgente que o façamos.
As relações são complexas porque não evoluímos, não partilhamos e depois… damos espaço para o caos tomar poder, o conformismo, o egoísmo… e temos o caminho minado e completamente … não diria impossível mas quase, de se poder sair, avançar e evoluir.
O medo sentimento que pode ser fantástico porque nos torna por um lado previdentes, cautelosos, por outro, cobardes e mesquinhos.
Pensava eu ter chegado ao Outono da vida e no entanto percebi que já passei tantos Invernos… Os Invernos da minha vida… que me têm privado, por momentos, de respirar tal é o frio e o vento cortante… ainda assim continuo a passar de estação em estação quase em suspenso, sem saber se continua Primavera, Verão, Outono e Inverno, ou se vou ter mais Primaveras ou mais Invernos…
Partilhemos! Partilhemos! Possibilitemos a recuperação e salvação das gerações que nos farão justiça! Tentemos ser o que devemos ser: Humanos! Vamos recuperar o amor, o sol e o OXIGÉNIO!
Partilhemos!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Curiosamente

Tenho feito muitos pontos de situação ao longo da minha vida. Curiosamente e por razão que desconheço esses momentos são sempre tão iguais: caracterizam-se acima de tudo por um momento (momento que pode ser bastante longo, sendo que longo é um conceito relativo, aliás como quase todos…) de total indefinição e perda de rumo. Mas o mais estranho é o rumo que acabo por encontrar seja lá ele qual for, me leva mais cedo ou mais tarde ao mesmo ponto: desespero, tristeza e solidão.
E quando procuro analisar as razões de tal estado verifico apenas que sou desligada de pressupostos maléficos e ambições desmedidas. Curiosamente pensava ser um aspecto, dos poucos que tenho, interessante. Curiosamente também, não estou sozinha neste meu “triste fado”.
Neste tempo tão conturbado em que a existência surge como algo tão estranho e indefinido e provavelmente estéril, pergunto que saída tem o Ser Humano para não se deixar arrastar numa amálgama de pretensões, exigências e violência que não levam a nada?
Curiosamente, questiono-me se, como ser individual no meio do colectivo, poderia fazer diferença se voltasse atrás e mudasse algo no meu percurso? E percebo que existimos apenas, que somo pegadas na areia que o mar apaga de seguida e a nossa contribuição é estranhamente egoísta e invisível.
Curiosamente e apesar de tudo quero continuar a acreditar que sou capaz de rir, que existem momentos longos de felicidade e bem-estar. Curiosamente, quero acreditar que os meus filhos não nasceram de um ventre infértil e escuro. Quero CURIOSAMENTE ACREDITAR, que o Sol pode, deve e entra em nós para nos iluminar. Curiosamente, quero acreditar (chamem-me naïf, lírica…) o mundo e os homens podem ser melhores, independentemente do passado longínquo e próximo me diga, curiosamente e precisamente, o contrário.
Curiosamente, quero acreditar que consigo, não importam as pedras e vidros no caminho, que consigo fazer deste meu “fado” algo mais que um percurso de lamentações, frustrações e muita tristeza.