quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo:"Fui eu?";
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

...

-Estou?

-Ana? – ouviu do outro lado da linha uma voz masculina desconhecida.
-Sim… quem fala?
-Paulo Maciel. Conhecemo-nos no encontro de Open Acess na reitoria através da Carmo.
Ana procurou na sua fraca memória a informação pertinente sobre esse encontro.
- Ah sim. Como vai? Em que posso ajudar?
-Peço desculpa por a estar a incomodar mas a Carmo deu-mo o seu contacto pois cheguei de Coimbra e ela hoje não está cá no Porto.
- Sim, claro. Carmo disse-me que lhe tinha dado o meu contacto e que eventualmente me poderia ligar.
- Espero que não ache abusador mas poderíamos falar hoje à noite? Tomávamos um café ou uma bebida…
Ana não respondeu logo.
- Um café. Tenho um compromisso, mas posso tomar um café.
- Bom nesse caso poderíamos deixar para amanhã… se fosse melhor. Não quero atrapalhar…
- Não é atrapalhar mas de facto já tenho alguns compromissos ao longo da semana. E que tal ao final da tarde?
- Ok, pode ser ao final da tarde.
Combinaram as horas e o local.
Ana desligou e achou um pouco inconveniente da parte de uma pessoa desconhecida achar que ela tinha disponibilidade para ir tomar um café ou uma bebida, assim, em cima da hora; é até um pouco presunçoso. Bom, não queria estar a fazer conjecturas, até porque não sabia o que a Carmo lhe teria dito… ainda assim…

domingo, 11 de dezembro de 2011

...


28 Outubro 1961

Ontem houve uma manifestação contra a guerra no ultramar e a favor da demissão de Salazar. Como sempre não foi pacífica e houve mais prisões.
Não posso acreditar que vivo num país em que não posso expressar livremente a minha indignação contra a violência e a más condições de vida sem correr o risco de ser preso ou mesmo morto. Será que algum dia vou poder sentir a liberdade?

12 Novembro 1961

Estamos de luto! Morreu um camarada nosso, Cândido Martins Capilé, abatido por aqueles que nos deviam proteger, que deviam proteger a população em geral: a GNR.
Ao mesmo tempo que o meu medo aumenta também aumenta a minha revolta. Começo a achar que devemos partir para a violência porque parece que mais nenhum caminho nos leva a lado nenhum.
Já não sei…


 15 Novembro 1961

Estou de partida! Já no barco, e muito enjoado.
A despedida foi triste e um pouco histérica. Aminha mãe estava inconsolável. Os meus camaradas disseram –me adeus ao longe para não comprometer.
Não sei o que esperar … pode ter sido a última vez que vi rostos amados. Foi uma opção.
Faço parte de uma força de Fuzileiros Especiais. Vai ser duro, disso tenho a certeza. Vou parar, tenho que ir vomitar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

...

Já passava das duas da tarde, Ana tinha ido a casa almoçar. Em vez de comer qualquer coisa, esticou-se no sofá e adormeceu. Acordou e viu que estava atrasada. Na reitoria decorria um encontro sobre Open Acess em Bibliotecas. Lavou os dentes, penteou o farto cabelo apressadamente, pegou numa maçã e saiu.
A segunda parte já tinha começado. A sala estava escura e Ana que tinha vindo da claridade não vislumbrava nada. Optou por se sentar numa das últimas cadeiras.
Eram sempre muito interessantes estas ideias, o pior era conseguir passa-las do ideal para o real. Só por isso é que lhe custava estar nestas coisas, se bem que aprendia sempre alguma coisa…
Há saída uma colega de outra biblioteca vem ter com ela.
- Ana!
Olhou e viu Carmo a dirigir-se a ela com um grande sorriso e acompanhada de um dos oradores.
- Olá Carmo. Não te tinha visto hoje. Correu bem, certo?
- Sim! Está a ser uma boa partilha. Ana – e apontando para o acompanhante – Paulo.
Ana sorriu e estendeu-lhe a mão.
- Muito prazer.
Ele estendeu-lhe a mão e sorriu também, mas nada disse.
- Paulo é um dos principais impulsionadores destes debates e claro, um dos principais oradores.
Ana olhou para Paulo um homem alto, com os seus quarenta, mas de cabelo já bastante grisalho e algumas falhas. Não sendo propriamente bonito era um homem atraente, com uma postura firme e máscula.
Seguiram-se mais uns minutos de conversa da treta e mais encontros com algumas pessoas que Ana conhecia, trocaram-se algumas impressões e o evento chegou ao fim. 

7 de Outubro de 1961

Na rádio ouviu-se o discurso do embaixador português em Angola, Venâncio Deslandes no qual dizia terem acabado as operações militares e iniciado as operações policiais. Poderíamos depreender que as coisas começavam a acalmar em Angola no entanto, Mário disse que isso não era verdade. Que a resistência se mantinha e a luta armada ainda estava a começar.
Eu partirei em breve, dia 14 de Novembro.

domingo, 27 de novembro de 2011

Troika

Na actual conjuntura creio que haverá um número pequeno de pessoas que não pensem, discutam e reflictam sobre o estado actual, não só do país, como do mundo.

Eu tenho momentos de grande frustração e revolta e, dificilmente consigo perceber que possa, eventualmente, não estar a ser justa. Não me parece fácil em muitas circunstâncias estar na “pele do outro” mas procuro, sempre, olhar os vários lados da questão. Provavelmente nem sempre consigo, mas vejamos… é complicado.
Então, sempre me disseram que o exemplo vem de cima e em parte é nisso que assenta a educação que dou aos meus filhos. Não posso exigir se não o fizer. Claro que nesta relação existe o AMOR, algo que complica e descomplica tudo, mas que me obriga a ser muito mais tolerante e generosa, mas também mais exigente e disciplinada.
Tenho três filhos, todos a estudar e sou divorciada. Não me lembro desde que tenho filhos de ter um mês em que não contasse os tostões e, obviamente depois do divórcio, isso agravou-se.
Não me lembro de uma férias em família, onde pudesse desfrutar apenas da companhia da família, sem pensar nas roupas para o dia seguinte, almoço e jantar, etc. Depois do divórcio há 11 anos, pior. Sim há pessoas pior que eu, é um facto, e por isso devo cruzar os braços e dizer paciência, tem que ser?
Então vejamos o primeiro-ministro que é um homem da minha geração mas que provavelmente trabalha há menos tempo que eu, porque eu comecei aos 16 anos, diz a propósito das férias: «Vou agora estar uns dias com a minha mulher e as minhas filhas para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias. Procurarei aproveitar intensamente o tempo disponível: afinal é nas situações mais simples que podemos encontrar os momentos de maior felicidade
Eu nem sei se vou conseguir manter os meus filhos a estudar quanto mais a recuperar o meu papel de mãe e pai. Óbvio que no final de um ano de trabalho nada melhor, nem que seja só uma semana, poder relaxar e descontrair junto daqueles que amamos. Parece-me justo para todos mas só alguns o podem fazer!
Quanto a este ódio que se tem vindo a instigar contra os funcionários públicos (e eu sou funcionária pública) é algo que desde que existo sempre aconteceu. Quando acabei o liceu não sabia muito bem o que queria fazer até porque a partir do 10º ano já era estudante-trabalhador e como tal perdia-me na realidade das obrigações do trabalho e no idealismo de uma vida de estudante. Resolvi tirar um curso técnico-profissional, muito pouco usual na altura, e que me abriu as portas ao funcionalismo público. Trabalhar na função pública nunca foi questão sine-qua-non no entanto o trabalho para o qual me preparei só era feito em instituições públicas: Bibliotecas.
A função pública é como qualquer empresa: tem coisas boas e más, bons e maus empregados, bons (poucos, muitos poucos) e maus gestores (montes). No entanto ao contrário daquilo que nos fazem crer os verdadeiros MAUS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS têm sido SEMPRE os gestores de Portugal, vulgo políticos, que aliás nunca se vêem como tal e prova está nas fantásticas afirmações do primeiro-ministro, que me repugnam e me enraivecem literalmente, quando afirma que «temos que EMPOBRECER».
Temos? Quem? Ele não é de certeza que mantém o mesmo nível de vida a que sempre esteve habituado. E com certeza não são essas empresas, sociedades, associações, que têm milhões de dívidas para cumprir e que são perdoadas, ou esquecidas como manda a boa corrupção e demagogia da política portuguesa e dos políticos portugueses, como bem se pode constatar do caso da Madeira e daquele energúmeno indivíduo que mantém o poder independentemente das barbaridades que diga e faça. A democracia na sua plenitude!
Enfim tanta coisa que nos passa ao lado, a nós comum cidadão, e que somos apenas manietados, manipulados e seduzidos pelas alegações de pseudo-patriotismo, pseudo-honestidade, e total lirismo: «Mas também julgo que restam poucas dúvidas quanto à nova forma de fazer política e de nos relacionarmos com o universo civil da nossa sociedade: queremos transmitir o que fazemos e por que o fazemos. Achamos que é de elementar justiça prestar contas ao País, quando, afinal, estamos a trabalhar e a gerir o dinheiro dos Portugueses. E queremos que a Sociedade Portuguesa mude de vida para encontrar um rumo de prosperidade que nos permita, a nós e aos nossos filhos, olhar para o futuro com confiança e optimismo. Essa é a razão última deste enorme esforço, deste nosso desafio
Enquanto direccionamos a nossa raiva uns para os outros, não focamos energias na melhor forma de luta contra esta maldição, nem contra o Estado.
O exemplo vem de cima. Quando esses senhores não tiverem benefícios extras (carros, alojamento, etc., já ganham muito bem!), nem subsídios, e tiverem que dispensar a empregada e sujeitarem-se a apenas a um CHORUDO ordenado, talvez possamos acreditar que a crise é para todos.
Eu pago as minhas dívidas não tenho que pagar as do país. Eu tenho gerido o meu capital da melhor forma que sei e posso e tenho cumprido. NÃO ADMITO QUE ME EXIJAM O IMPOSSÍVEL! EU NÃO PAGO MAIS! 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

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Ambos reagiam à defesa sempre que o outro tentava passar a fronteira do impessoal e entrava no terreno movediço e frágil do pessoal.

Nunca se imaginou assim, numa relação…mas havia tanta coisa que não tinha imaginado (nem imaginação tinha para tal) e pela qual já tinha passado, que começava achar natural o inimaginável.
- Ok. Mas se calhar podias partilhar as tuas descobertas… eu também estou curioso e gostava de saber a história…
- Quando acabar de ler, quem sabe… talvez te deixe ler. Nem olhou para ver a reacção. Saiu e foi arrumar o livro.
Quando voltou Mário já estava praticamente vestido. Olhou-o com algum espanto, procurando no entanto não dar a perceber.
- Já vais? Disse numa voz pouco natural pelo esforço que fez de não deixar transparecer nenhuma emoção.
-Já. Acho que por hoje já tivemos conversa que chegue. Pelos vistos esgotei a tua capacidade.
- Que queres dizer com isso?
- Ana, sabes que não somos bons a dialogar! Fiquemos por aqui. Fui.
- Bem, pela tua capacidade usávamos linguagem gestual e telepata… se existisse. Ok vai.
Ele foi. Nem para trás olhou. As vezes que tinham tentado dialogar tinham sido sempre assim, duas frases pouco simpáticas cada um e, pronto. Não pareciam dois adultos já maduros, antes duas crianças embirrentas. Na realidade só podia ser o seu desespero a aceitar tal relação e provavelmente o dele.
Ana foi buscar o livro e meteu-se na cama.
5 de Outubro de 1961
Têm vindo notícias bastante assustadoras de Angola. Imagens horripilantes, massacres indiscritíveis que os média constantemente exibem para nos obrigar a estarmos do lado do governo. Manobras políticas e de manipulação da opinião pública.
Na verdade, conseguem incutir-nos medo. Eu ando completamente assustado. Não porque ache que eles não têm direito a lutar pela sua liberdade, mas pela forma como tudo se está a processar. Esta violência que nos torna muito mais animais e que nos despe de qualquer sentimento e emoção de simpatia, benevolência, compaixão, solidariedade é assustador.

Como diz Mário, não nos podemos deixar influenciar. Até porque ninguém sabe ao certo o que há de verdade nas notícias e de como realmente se está a desenrolar todo este processo. Mais logo vamos reunir e agendar a minha preparação e  a de mais dois camaradas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A história de uma abelha

Às vezes gostava de ter cristalizado em mim a capacidade de acreditar que a vida é uma história bonita, com alguns sustos mas onde tudo acaba bem. Gostava de manter a ingenuidade de uma criança, quando lhe contam uma história de encantar e ela deslumbrada, sorri o tempo todo.

Hoje quase acreditei que revivi por momentos esse estado de graça. Num dos canais nacionais passava um filme animado que o meu filho mais novo me “obrigou” a ver: A História de uma Abelha.
Era daquelas histórias sobre o ser humanos mas personificadas, neste caso, por abelhas. Uma abelha menos popular vira o herói corajoso, bondoso e altruísta.
Pese embora o meu cinismo mais ou menos constante nas virtudes humanas, não parei de sorrir enquanto a história não acabou. De quando em onde lá dizia “tão bonito!”, “oh tão querido!”. Sentia dentro de mim uma nostalgia e uma vontade de me deixar, por momentos, levar por aquela fantasia como se nada no mundo importasse.
Depois tentei perceber porquê a necessidade de acreditar no inacreditável. Percebi que é essa precisamente a razão: acreditar no inacreditável. Acreditar que algures em algum momento os homens serão esses seres que, desde que existimos falamos quase como figuras mitológicas, e que não conhecemos. Na realidade a única coisa que conseguimos é repetir uma e outra vez erro atrás de erro dos muitos cometidos pelos nossos antepassados.

De vez em quando surgem uns iluminados: Ghandi, Luther King, Nelson Mandela, Madre Teresa. Fazem a diferença num momento, noutro, são esquecidos.
Gostava de cristalizar em mim a inocência!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada

Miguel Torga

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

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3 Outubro de 1961

Soubemos que Eduardo já foi para o ultramar. Eu vou também. Alguns companheiros alistaram-se com o intuito de poderem fazer a diferença lá fora e quantos mais melhor.
Estou com medo. É a coisa mais difícil que já tive que fazer em prol da luta. Os meus pais não sabem, aliás ninguém sabe da família. De qualquer forma a tropa é obrigatória e eles estarão mais ou menos a contar.
Espero que quando for a minha vez, não vá sozinho.
Entretanto vou fazer uns treinos de tiro e não só. Eles acham importante, estarmos preparados. Não aconteceu o mesmo ao Eduardo porque é mais velho e chamaram-no antes de o poder fazer. Só espero que sirva um bem maior e não seja em vão que fazemos este sacrifício…

Ana saiu do quarto de banho com a toalha envolta no corpo. Mário estava ainda na cama, com o diário aberto. Olhou para ela e acenou com o manuscrito.
- Que é isto?
Ana aproximou-se e tirou-lhe o livro da mão.
- Não devias pegar no que não é teu.
Mário lançou-lhe um olhar de surpresa e crítica, abanando ligeiramente a cabeça. Ela encolheu os ombros…
- É um livro que estou a ler.
- Não é um livro qualquer Ana. Se não queres falar, tudo bem. Mas tenho curiosidade… e sorriu.
- Encontrei-o na biblioteca. É um diário que veio junto com uma doação. Como tu, tenho curiosidade. Não pelas tuas coisas, mas pelo que alguém escreveu numa altura interessante conturbada e polémica do nosso país, e muito próximo do nosso tempo.
Mário estava calado a olhar com aquele, meio sorriso de cinismo, implicitamente uma crítica ao seu tom de voz e achegas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

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Quanto a esta guerra não sei muito bem o que vamos poder fazer. Artur acha que este grupo pode estar já ameaçado. Eles infiltram-se (PIDE) sem darmos por isso. E cada vez temos mais cuidado, mas nunca é seguro. (...)

- Sim?
- Olá Ana. Ocupada?
- Não mais que o costume. Diz.
- Queres sair?
- Hoje não, obrigada. Estou cansada, fico por casa.
- Posso ir até aí. Conversamos um pouco…
- Ok. Até já!
Mário. Um amigo, daqueles coloridos, como lhes chamam. Alguém que preenchia mais um buraco na sua vida, sem o preencher. Provavelmente Ana fazia o mesmo efeito. Ou seja, tapavam buracos um ao outro.
Não se queixava. Divorciada, porque não era feliz no casamento, sem nunca mais sentir a paixão, o tremer de um encontro, um arrepio quando beijada, deixou-se levar pela necessidade de ter de vez em quando o calor de outro corpo junto do seu.
Sem emoção, sem receio, sem sentimento. Apenas um deixa rolar.
Mário já tinha dois casamentos na bagagem, e pelos vistos não tinha sido feito para relações. Por qualquer motivo tinha-se deixado ficar assim, nesta coisa, sem ser, sendo.
De alguma forma a indiferença, a descrença, a frustração que ambos tinham por relações, foi o que os juntou.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tempos modernos...


A conturbada situação que se vive hoje na terra é no mínimo absurda.
Na minha mente vejo-a como um funil: na parte mais larga do funil está o mundo, vai descendo e temos a Europa e finalmente na parte mais fininha Portugal, já fora do funil em pequenas gotas de… qualquer coisa temos a nossa realidade profissional.
Afinal a História não nos tem ensinado nada. Esses nossos líderes iluminados e cheios de arrogância e soberba, de pseudo-integridade, esses que do alto do seu poder e conforto se sentem no direito de EXIGIR sacrifícios pelas barbaridades que eles e outros como eles têm vindo a cometer impunemente contra os nossos direitos mais básicos de sermos humanos: liberdade, educação e saúde para todos sem raça nem credos. Esses mesmos que nos espezinham, não aprenderam NADA!
Há medida que avançamos no tempo e que somos assoberbados com a explosão do avanço tecnológico, com a “conquista” do espaço, somos também assoberbados pela soberba, pela mesquinhice, pela hipocrisia e demagogia.
«A vida merece algo além do aumento da sua velocidade.» Gandhi
No entanto cada um de nós também é culpado. Somos perfeitos instrumentos de manipulação e subjugação, com o nosso egocentrismo, o nosso medo e a nossa curta visão da vida.
Contra mim falo. Quero no entanto aprender. Quero poder construir um futuro melhor, com pessoas melhores, para as gerações vindouras.
«O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons» Martin Luther King
A vida tem um significado tão estranho. Vivemos com um medo terrível de morrer, quando é o que temos de mais certo na vida. Esse medo tolhe-nos. Por isso os jovens são fantásticos: arriscam, remam contra a maré, VIVEM SEM MEDO.
«Se um homem não descobriu nada pelo qual morreria, não está pronto para viver.» Martin Luther King
Quando um menos jovem vive assim chamam-lhe louco! Eu quero ser louca, SEMPRE!



«SEJA QUAL FOR O DEUS EU SOU O MESTRE DO MEU DESTINO E CAPITÃO DA MINHA ALMA» Nelson Mandela

sábado, 15 de outubro de 2011

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Era um novo desafio: saber mais sobre essa época.
A primeira coisa que descobriu é que a guerra do ultramar também chamada guerra colonial ou guerra da libertação, começou efectivamente a 4 de Fevereiro de 1961. Ou seja, há coerência temporal no diário, pelo menos no início.
Foi procurar relatos que lhe pudessem dar uma outra perspectiva, ou não, da guerra. Estava curiosa. Fala-se tanto em guerras e como o povo português é um povo de “brando costumes”, no entanto fizemos uma guerra que matou milhares de seres humanos. Independentemente de qualquer perspectiva, uma guerra nunca pode ser uma coisa boa, nem obter bons resultados. A violência gera violência. E o presente e as absurdas guerras que tem acompanhado à distância dizem-lhe isso.
Chegou a casa mais tarde que o costume. Esteve a consultar uns livros, bem como a fazer algumas pesquisas. Em casa perdia um pouco a “pica”. Muito silêncio e a casa muito vazia… Poder-se -ia dizer que era uma casa cheia de nada.
27 de setembro de 1961

A televisão anunciou que existem manobras em Angola com o intuito de pôr fim há violência. Se não fosse trágico até era cómico. Finalmente os autótones revoltaram-se contra os opressores. Nós aqui devíamos começar a fazer o mesmo. Mas as coisas ainda continuam muito sossegadas. Depois da “derrota” (através de acção fraudulenta) do General Humberto Delgado nas eleições, as pessoas ainda ficaram com mais medo. Acreditam, algumas, que nunca iremos conseguir mudar nada. Eu acredito que vamos conseguir…algum dia. Ele não desistiu, nem nós.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

...

Reunimos novamente eram 19h. Eduardo estava nervoso. Era dos mais velhos e lutava contra o fascismo há já alguns anos. Tinha perdido alguns amigos, desaparecidos ou mortos. Ele achava que muitos estariam presos. Foi ele que nos disse que começara a guerra em Angola, depois de um golpe de estado. Que Portugal entrara a matar, ou seja, iria impor a força para valer o seu poder. Nós jovens da minha idade e todos os homens em idade militar iriam para lá.

Fiquei em choque. Primeiro porque não sou violento e depois porque “as guerras” que gostaria de travar, era aqui mesmo em Portugal, contra esta política absurda, que nos oprime, escraviza e silencia.
Começava a piscar os olhos do cansaço a vencer a curiosidade. Largou o livro em cima da cama e deitou-se.
Teve uma noite agitada. Não sabia bem qual a razão. Talvez a ansiedade de perceber onde a levaria esta nova descoberta ou apenas pelo facto de andar muito cansada.
Levantou-se à última da hora e a muito custo arranjou-se mais depressa que o normal, pois estava atrasada. Detestava andar a correr logo pela manhã, por isso preferia levantar-se cedo e andar nas calmas. O stress logo pela manhã era indicativo que o dia não ia correr bem.
Não conseguia deixar de pensar no diário. Não sabia praticamente nada sobre a guerra do ultramar, aliás sabia pouco sobre o tempo do fascismo. Tinha ouvido algumas histórias, a maior parte contadas pelos pais, outras foram sendo transmitidas ao longo da sua vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Lápide

Quando eu morrer e tu ficares sozinha,
Longe do bafo quente do meu corpo,
Tu a quem eu amei, sei lá por vingança
De Deus,
Nessa hora,
Olha serenamente a nossa história inútil
E chora...

Rega de pura mágoa a flor do «nunca mais»
(Sequer ao menos a flor do «nunca mais»),
E depois morde o chão seivado e semeado
Do místico perfume do meu sexo
Sepultado...

Miguel Torga

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A verdade é um lugar estranho... continuação


A propósito ainda da verdade ser um lugar estranho e de cada um de nós ter uma verdade única no sentido global do conceito, pergunto-me se a nossa existência se torna tão conturbada e complexa porque não conseguimos ver o nosso reflexo nos outros.
Passo a explicar. Cada um de nós tem uma ideia de si próprio. Na sua relação com os outros, cada um de nós, percebe que a ideia que tem de si mesmo não é coincidente, pelo menos algumas vezes na vida, com a forma como os outros nos vêem. Não falo da má-língua, do deitar abaixo só porque sim, nas humilhações a que somos expostos estupidamente vezes demais na vida, falo daqueles que amamos e daqueles que são importantes e da sua forma de nos verem.
Quando percebemos que aquele não nos vê como nós pensamos que fazemos? Mudamos? Limamos arestas? O que fazemos?
Esta é a minha grande dúvida. Claro que o senso comum dirá: ninguém é perfeito, deves ter a capacidade de mudar, limar arestas, etc. Mas se não me vejo assim, vou mudar só porque outros me vêem? Onde está o bom senso?
Claro que é precisamente isso que tenho feito tentado melhorar-me, mas também me tenho sabotado demasiado por achar que a opinião desses mesmos é importante e que se calhar eu é que estou errada.
É insegurança? Será! Aliás creio que me tenho sabotado toda a vida à custa de não ver o meu reflexo nos outros. Acima de tudo tenho-me sabotado porque não tenho orgulho em mim própria.
Quando o contrário acontece e estamos completamente indiferentes à opinião dos outros, podemos cair facilmente num egocentrismo e numa auto estima exacerbada. E acredito que isso será tão mau, ou talvez pior, porque esses não se demovem perante nada e só eles contam.
Assim, como ficamos nisto da verdade e qual o equilíbrio esperado? Será que a verdade é afinal aquilo que sempre achamos ser? Contrário da mentira, da ilusão, da má-fé?
Tenho dúvidas…

sábado, 1 de outubro de 2011

A verdade é um lugar estranho

A verdade é um lugar estranho.
Cresci a ter a certeza que a verdade só é, e só pode ser, UMA.
Há medida que o tempo vai passando sei que a verdade são muitas faces, muitas sensações e um infindável painel de cores.
As certezas de outrora começam a desmoronar e fica então o quê? Uma sensação de…perdição. Nada é o que parece.
Verdade=conformidade da ideia com o objecto, do dito com o feito, do discurso com a realidade diferente de erro, ilusão, mentira.[1]
Pois eu creio que a vida só por si é uma ilusão. No entanto não tem que ser algo mau, apenas estranho.
A verdade é um lugar estranho.
Há alguns anos atrás uma das minhas irmãs, numa das suas incursões na literatura, escreveu uma pequena autobiografia. A pessoa que ela descrevia como sendo eu, para mim, era uma completa estranha. Nunca me vi assim e nem imaginava que alguém o pudesse fazer.
Passado muitos anos numa conversa com uma tia, ela descreve-me a minha mãe, não como uma completa estranha, no entanto, com muitas verdades desconhecidas minhas e da minha mãe (que nunca considerei mentirosa).
Hoje os meus filhos descrevem-me como uma pessoa também, não totalmente desconhecida, mas estranha, na qual eu não me revejo na maior parte das situações.
Assim quem fala verdade? Quem mente? Quem se ilude? Quem joga de má-fé?
Acredito que ninguém. Cada um vê a verdade do alto do seu mundo e cada tem um mundo diferente. Cada um sente e experiencia atos, situações, discursos de formas diferentes sem as tornar menos verdadeiras ou reais.
A verdade é um lugar estranho!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

...



Chegou a casa exausta. A casa vazia. Vazia como a sua alma. Há medida que o tempo passava e os filhos se foram afastando, ela sucumbiu ao vazio. Se calhar afastou-se do materialismo da sua vida, que preenchia um vazio… apenas aparentemente.
Era tarde e estava sem fome. Tirou o diário da saca, sentou-se no sofá e começou a ler. Não era o início de nada, mas sim uma continuação, o que queria dizer que devia haver mais diários. Tinha que ir procurar. Ainda assim resolveu começar a ler. 
21 de setembro de 1961
Hoje está um dia triste. Continua-se a ouvir comentários sobre a guerra que eclodiu em África, nas colónias portuguesas… estou nervoso… vamos reunir hoje às 10h da noite. Ninguém sabe nada ao certo, vai ser bom podermos esclarecer algumas dúvidas, receios… espero. Mais logo já saberei.

domingo, 25 de setembro de 2011

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Era a semana do turno da noite.
A Biblioteca com o seu horário extenso obrigava os funcionários a fazerem turnos.
Estava-se nas férias de Natal. O movimento não era muito. Ana foi arrumar alguns livros. Teve que ir ao armazém buscar “cantos”. Estava muito escuro naquela secção da biblioteca, Ana abriu a porta do armazém e tocou na parede no lado direito superior até sentir o interruptor da luz. Acendeu-o.

Grande confusão naquele armazém, cheio de pastas e livros, uns mais velhos outros mais novos… Não sabia bem onde encontrar os “cantos”. Começou a procurar… mas por aquele andar nunca mais o conseguiria. Tanto livro por tratar. Alguns já se desfaziam de velhos e dos maus tratos recebidos ao longo da sua existência. Foi tirando um e abriu, depois outro e mais outro. Até que se deparou um com capa dura e meia apagada dum cinzento bastante escuro e onde mal se distinguia o título e autor. Abriu e percebeu que se tratava de um manuscrito e não de uma obra publicada, talvez por isso não se distinguiam as letras na capa. Um diário. Seria da pessoa que os tinha doado?
Era frequente a biblioteca receber doações de bibliotecas particulares aquando da morte dos seus donos, pelos familiares, que se queriam libertar daquela imensidão de livros que foram os companheiros e companhia da pessoa que morreu. Pelo menos permitiam a que outros partilhassem do conhecimento imenso e rico que uma biblioteca particular pode ter, dado a sua diversidade, na maior parte dos casos.
- Ana? Estás aqui? - Zé Pedro o segurança chamava por ela, devia estar na hora do fecho da biblioteca.
- Sim. Desculpa, já vou, perdi a noção do tempo.
Sacudiu o pó do livro fechou e trouxe-o com ela. Estava curiosa.

sábado, 3 de setembro de 2011

África Minha

Caminhava pelo passadiço feito de tábuas na praia. Eram 8 horas, sábado de manhã. O tempo não estava frio. Apenas húmido e cinzento. Pouca gente se via. Caminhei pouco tempo. Fui e vim e não consegui descontrair-me, nem abstrair-me, nem nada… foi como se aquela caminhada fosse apenas mais uma tentativa falhada de evasão e tivesse servido apenas, para me cansar.
Na realidade eu queria cansar-me mas, queria acima de tudo libertar-me, livrar-me das inibições e medos que me acompanham, parece cada vez mais, dia a dia, segundo a segundo, mas não.
Quando cheguei a casa em vez de pegar no livro que estava a tentar ler “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” de Mia Couto, liguei a televisão e estranhamente coincidente estava a dar “África Minha”.
Digo isso porque são perfeitas descrições, visões… de África mas não só. São espelhos de vida!
Já vi várias vezes o filme, sempre em diferentes momentos da minha vida e talvez por essa razão, a mensagem que surge é sempre diferente, mas sempre fabulosa e impressionante.
Creio que é uma das melhores histórias sobre o SER que me foi dada a conhecer, ou talvez não. Afinal ainda há muita gente capaz de contar a vida brutal e intensamente.
Uma das notas, mensagens, o que queiramos chamar, é sem dúvida nenhuma perceber que nada possuímos e que efectivamente a vida é apenas uma jornada, feita de tanta coisa mas volátil e efémera. Não somos donos de nada. Nem de coisas, nem de pessoas e nem de nós próprios. Então porque nos esforçamos tanto por possuir e mostrar que possuímos?
No esforço inglório dessa tarefa a vida esvai-se em questões mesquinhas, no reforçar das nossas inibições, medos, preconceitos, angústias… enfim num número infindável de… nada.
Creio mais que nunca, olhando à nossa volta, que devemos… TEMOS que traçar efectivamente novas prioridades e novos objectivos a alcançar.
Só ouço em vender e comprar… saber vender um produto seja ele qual for (aliás parece que a máxima de Marketing é, mais que vender um produto, torna-lo necessário) para que seja comprado. Ou seja, POSSUIR está na ordem do dia.
Podem sim, chamar-me ingénua, estúpida, etc., mas é assim tão difícil ver o que vejo?
Não sei se o facto de ter nascido em pleno século XX e ter sido influenciada pelas lutas do início desse século, nomeadamente a abolição da pena de morte, a luta pela democracia, a luta pela “igualdade de direitos” independentemente do sexo, raça ou religião; já a meio, pelo Woodstock (peace drugs and rock), pelo 25 de Abril... e para o fim, apanhar com o desmoronar de todos esses direitos e perceber que essas lutas não foram suficientes para que cada um se mantivesse um SER. Surge a Europa Unida (a globalização), o euro e a castração global do indivíduo. As absurdas guerras em nome do PODER disfarçado de política, Alá, Deus… A bestialidade que toma conta de cada um de nós.
O século XXI surge vestido de negro.
Já não existem lugares sagrados. São sagrados se derem lucro ou poder.
O meu tempo neste tempo não será longo, mas que herança deixo aos meus filhos?
Adeus África Minha…

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Losing myself

I lost myself
I lose the fight
The fight of changing
Changing me,
Changing the way I act
Concerning the way I think
I lost the battle of renewing
I lost the war against
My fears,
My selfishness
I lost the war
For the darkness
The sadness…
I lost myself
M.S

sábado, 6 de agosto de 2011

Angústia

 

Esta angústia que me rasga a alma

Me enche de uma sensação de vazio

Esta angústia que cresce a cada segundo que respiro

Me ofusca com a escuridão

Esta angústia que me sufoca

Me impede de continuar

Esta angústia inexplicável

Que invade todos os espaços que eu piso

Esta angústia que me prende numa espiral de medo

Que me limita, me paralisa

Esta angústia que não sei donde surgiu

Se imiscui em todo o meu ser

Que respira nas minhas entranhas

Que se alimenta da minha fragilidade

Da minha incapacidade de lutar

Esta angústia que existe sem eu querer

E penetra no meu coração
 e o compele a bater tresloucadamente

Esta angústia… como libertar-me?

Someone like you

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pássaro

Há momentos em que gostava de ser um pássaro.
Não faz muito tempo, encontrei um ninho numa árvore no jardim do meu prédio. Estava tão perto da varanda da minha casa que pude acompanhar o desenrolar do que se passava com esses meus novos e sui generis vizinhos.
Depois de ter posto dois ovos, azuis, só um chocou e dele nasceu um passarinho. Não sei que tipo de pássaro porque não percebo nada disso. Engraçado era ver a forma carinhosa e dedicada com que a fêmea cuidava do bebé. De vez em quando vinha um outro pássaro, que na minha realidade e na minha ignorância, seria o macho, parava na ponta do ninho como que a falar qualquer coisa e depois la levantava voo de novo. Quando a mãe se começou a ausentar com mais frequência e mais demora, pude ver melhor a cria. Esta metia-se dentro do ninho, confundindo-se com o mesmo, como que resguardada de qualquer predador. Há medida que ia crescendo assemelhando-se cada vez mais com a progenitora.
Depois de algum tempo deixei de ver qualquer pássaro. Sempre que eu ia à varanda não via nenhum, apenas o ovo azul que foi chocado. Com o decorrer do tempo, percebi que os pássaros abandonaram o ninho deixando apenas o pequenino ovo azul e o ninho que começou a secar.
Interessante como a natureza funciona tão bem. Depois de a cria encontrar a sua autonomia, cada um foi à sua vida. Sem culpas, sem mágoas, nem dramas… simplesmente.
Há momentos  em que gostava de ser um pássaro.
Poder voar e pousar em qualquer lugar. Observar e voar. Livre, livre!

Jars of hearts

domingo, 24 de julho de 2011

Quando se transforma a amizade…

Diz o ditado “Quem tem amigos não morre na cadeia”.
A amizade pode ser das relações mais gratificantes do mundo. Há aquela pessoa com quem podemos contar “incondicionalmente”, pois também sabemos até onde podemos e devemos ir. Existe um “acordo implícito” no respeito pelo espaço, pela vida, problemas, etc., um do outro ou, outros. Isso é tão natural que diria que é instintivo porque só assim sobrevive a relação mais simples do mundo entre seres humanos. Na minha opinião todas as outras são muito complexas à nascença: pais e filhos, irmãos e irmãs, maridos e esposas, amantes, etc.
Mas quando a amizade se transforma?
Sim, porque tudo muda e, ao longo dos tempos as pessoas necessariamente mudam. A amizade poderá subsistir às mudanças, e é o que normalmente acontece quando é “verdadeira”, mas eventualmente a amizade pode ser permeável, transformando-se.
Quando é a entre mulheres normalmente as mudanças têm a ver com ciúmes, inveja e competição: “porque foste com ela e comigo não pudeste; porque lhe deste o teu relógio e eu já te tinha dito que o adorava…” É a rendição aos sentimentos mesquinhos e absurdos que estão, intrinsecamente ligados ao nosso lado feminino, pela via social, acima de tudo.
Quando a amizade é entre os dois sexos e se transforma, obviamente é o sexo que está na base da mesma. Ou porque nos apaixonámos ou se apaixonam, e começa tudo a mudar e amizade vira algo de estranhamente indesejável e desconfortável. Ou porque se está sozinho e o instinto fala alto e nos envolvemos fisicamente e, tudo se transforma para pior. É o constrangimento de não saber como reagir com um amigo ou amiga com quem fomos para a cama. E claro o comportamento típico masculino, presunçoso e egocêntrico, induzido, também ele, pela via social, em que receosos que nos apaixonemos e possamos querer algo mais, fogem a sete pés e lá se foi mais uma amizade…
Pois… quando a amizade se transforma.
No entanto, quanto a mim é das melhores coisas do mundo e sinto-me grata pelas amigas e amigos que tenho, creio poder dizer que sou uma sortuda.

sábado, 23 de abril de 2011

Diz o Povo...

Diz o povo “não metas a colher entre marido e mulher”.
Eu não sei como surgiu este ditado, nem o que tinha em mente quem disse a frase pela primeira vez. Mas realmente, na generalidade, ninguém sabe o que se passa entre portas e paredes. Porque nem sempre existem gritos, nem violência física que seja audível. Só mesmo os "protagonistas" sabem. Ou talvez não...
O mesmo acontece com cada um de nós. Quando vemos alguém a conduzir um carro topo de gama, pensamos “que injustiça! Como pode haver gente com tanto e outros com tão pouco”. Mas o que não sabemos é que essa pessoa vive num T1 quase sem mobília e bastante degradado. Quando vemos uma mulher bem arranjada, bem maquilhada, que espelha aquilo que vemos como sendo o sucesso nas revistas de moda ou as chamadas revistas femininas e pensamos “há pessoas realmente que julgam que são melhores que ninguém e só se exibem”. O que ninguém sabe é que essa mulher está totalmente sozinha, com imensas dívidas, todas as noites chora e pensa de cinco em cinco minutos na melhor maneira e menos aterradora de se suicidar.
Sim somos invejosos, críticos e carrascos uns dos outros. No entanto todos sabemos como é fácil enganarmo-nos e enganar. Sabemos que fazemos muitos juízos, críticas e sabemos também que nos enganamos. Todos vestimos uma máscara que impede as pessoas de saberem efectivamente quem somos fora e mesmo dentro de paredes e até muitas vezes nem nós sabemos muito bem quem somos e do que somos capazes...
Eu acredito que muitos acreditam (perdoem a redundância)que sabem perfeitamente quem são e quem são os outros. Aliás frequentemente ouço "Oh sei bem quem essa pessoa é!"
Pois, somos tão assertivos.
Eu sei de certeza que vou morrer!
Na realidade a teoria da relatividade é bastante generalista e engloba quase tudo. O ideal era mesmo mudarmos completamente, na essência, como seres humanos.
Quando alguém afirma que é visível a melhoria acentuada e a claridade de pensamento a evoluir… pergunto será que é?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A dor

A dor é tão egoísta e quanto mais intensa mais egoísta, narcisista e megalómana.
Quanto mais intensos são os sentimentos, mais sofremos.
Somos seres emocionais e é acima de tudo quando somos seres crentes no bem e no mal mas que aquele supera tudo e todos que mais sofremos. Acima de tudo porque somos seres genuínos, transparentes, sem premeditação nem jogos. Mas a vida encapsulada pelo viver em “comunidade” e “democracia” não nos permite sermos sequer SER!
Racionalidade, ambição, subserviência e acima de tudo adulação! Como quase todos os seres se rendem a esse advérbio quando verbalizado. Dá dó! Mas na realidade, tirando alguns casos excepcionais, são os ingredientes de… “sucesso”, “felicidade” e “inteligência”?
Nada é garantido apenas pequenas coisas como depois da noite vem o dia, que as chuvas vêm das nuvens e que nós, seres, estamos aparentemente vivos e que todos morreremos.
“A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento (…)”
Há seres iluminados e que conseguem de uma forma belíssima expressar aquilo que eu gostaria de fazer. Expor os meus sentimentos de forma perceptível, partilhá-los e provavelmente fazer deles a mensagem de seres iguais a mim.
Deus não me dotou de nenhum tipo de dom que me permita comunicar o que ferozmente me corrói no interior. Não me deu a possibilidade de falar gritando aos sete ventos o que está aprisionado no meu “coração” e de maneira nenhum “Sou o senhor do meu destino, sou o capitão da minha alma” talvez porque não cresci e porque não fui abençoada com a capacidade de ver além de mim própria, para além de outras bênçãos e as que tenho não as consigo valorizar como provavelmente mereciam.
Porque a dor seja qual for a razão tomou conta de mim… e me vem apagando lentamente.