domingo, 31 de outubro de 2010

Words

sábado, 30 de outubro de 2010

Dúvida

Olhar para nós contínua a ser o meu maior desafio. Porque olho, olho, reflicto, olho, analiso e… ainda assim… somos MAUS! Claro que sendo uma generalização sofre de verdade absoluta, no entanto procuro comparar o SER HUMANO com os ditos animais irracionais.

As diferenças? Nós utilizamos a violência gratuitamente os animais irracionais só por questões de sobrevivência. Nós rivalizamos e competimos porque somos egoístas e estúpidos, os animais irracionais por questões de sobrevivência. Nós destruímos, espezinhamos, violentamos… por razão nenhuma.

Mas na consciencialização de tudo isto o que me deixa profundamente incrédula, estupefacta, siderada é conseguirmos justificar todos estes actos e acreditarmos que tem que ser. Mais, mesmo quando são actos contra nós próprios arranjamos lá num canto do nosso ser... Cérebro, alma... Essa mesma desculpa. Sim! E aí sim é por razões de sobrevivência.

Perdoem o cliché mas nesta selva de betão e tecnologia, já não há tempo para a reflecção e para a acção em conformidade; serve-se apenas o imediato, o bajulismo, a hipocrisia e voltamos ao Estado Novo disfarçado de Democracia. Diz-se o que não se faz e faz-se o que não se diz e cordeiramente baixamos a cabeça e cordeiramente aceitamos as palavras pelas palavras e os acto pelos actos. Quando falo "em aceitamos" falo total e completamente por mim, se bem que outros o façam, eu, estando consciente deixo-me levar...

Pedem-me que desista de mim, daquilo em que acredito. Pedem-me que "cresça" sendo crescer aceitar sem questionar, sem objectar, cordeiramente a "verdade" dos outros, a "maturidade"... pedem-me que deixe de ver arco-íris quando chove e faz sol... pedem-me que deixe de estremecer sempre que ouço uma música linda... pedem-me que deixe de crer em mim e nos outros... De crer que os meus filhos possam ter um mundo melhor...

No entanto, pedem-me para crer no outro que se julga acima de tudo e de todos porque, no momento, detém o poder.

Momento. É a palavra que pode fazer a diferença. Porque neste caminho tortuoso que é a vida, mais me apercebo da efemeridade e precariedade, volatilidade de tudo, sem lugar para a preservação... Até porque já à nascença as coisas estão a morrer. Porquê então o surreal absurdo da hipocrisia? O surreal absurdo da mentira, do egoísmo?

O meu verdadeiro surreal absurdo dilema é saber se continuarei a embarcar no surreal absurdo teatro da vida cordeiramente, desistindo de… OLHAR O CÉU!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Silêncio

Quando chegamos àquele momento na vida em que depois de tantas batidas e liçoes ficamos em silêncio... inertes, mudas, quedas...
É o momento, aquele da viragem: ou rebentamos com tudo e connosco ou perdemos e desistimos.
Mas esse momento é um momento tortuoso e "eterno". A solidão toma conta de nós, a comiseração também. E percebemos então que a vida é um percurso "pleno" de solidão e que não há expectativas, apenas traços indeléveis de desejos espelhados nas nuvens.
Percebemos que temos sido pequenas marionetas embebidas dos sonhos de outros, que vamos continuar a acreditar nos momentos melhores e a sonhar porque é assim a estratégia da sobrevivência. Somos sobreviventes acima de tudo da nossa ignorância e ambição. Somos sobreviventes a nós e aos outros.
E caminhamos nesse momento tortuoso e eterno sofrendo, sangrando, em silêncio.
Em silêncio optamos.
Em silêncio actuamos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.

Declamei,

Atirei frases em volta.

Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,

A carvão, a sangue, a giz,

Sátiras e epigramas nas paredes

Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi

Que nada me dariam do infinito que pedi,

- Que ergui mais alto o meu grito

E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,

Eis a razão das épi trági-cómicas empresas

Que, sem rumo,

Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava

Era, como qualquer, ter o que desejava.

Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,

Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado

Sair deste meu ser formal e condenado,

Erigi contra os céus o meu imenso Engano

De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!

Nu a teus pés, abro o meu seio

Procurei fugir de mim,

Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,

Sofro por este chão que aos pés se me pegou,

Sofro por não poder fugir.

Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!

(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)

Senhor dá-me o poder de estar calado,

Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,

Nunca os usei nem usarei,

Se nada do que levo a efeito vale,

Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,

Era por um de nós. E assim,

Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,

Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior

Do que a própria imensa dor

De compreender como é egoísta

A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros

Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,

E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,

E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,

Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.

E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.





José Régio, in 'As Encruzilhadas de Deus'

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Medo

Esta noite vi um filme que me trouxe a memoria mais intensa que guardei num cantinho seguro do meu consciente. O suicídio, a solidão, o desespero, a impotência e a culpa.


Cantinho seguro porque sendo a memória dolorosa, preciso que esteja perto para recordar a pessoa que amava.Revi-me total e completamente na dor expressa, fabulosamente, nesse filme. O nome inicialmente nao me despertou grande curiosidade "A mente dos famosos". Mas acabou por me interessar dado o actor principal ser o Kevin Spacey.

A vida e tao efémera e, apesar desse facto (que o é) e de ele nos estar sempre a ser lembrado, incorremos rotineiramente no mesmo comportamento estupido, mesquinho arrogante e intolerante. Apesar de constantemente stay on the edge (pelo menos a mim acontece com frequência) continuamos prepotentes e violentos...

O que nos faz desejar tanto espezinhar o outro? Que receamos no outro? Só pode ser medo! É o medo que traz ao de cima o pior de nós e revela-se das mais estranhas formas... Aliás é o medo que nos governa, que nos tolhe e nos cerca. É o medo que nos impede de evoluir que, nos sufoca na mediocridade do que é efémero, do que é, e é o medo que nos impede de alcançar o que não é.

Assim sim, entendo que a evolução seja acima de tudo nas coisas do ser e não no ser.

Pergunto: evolução para quando?

As trevas. São agora, já foram e voltarão a ser.

Afinal era tão fácil. Ser feliz. Permitir-nos ser livres. Não termos medo. Isto, a vida, são dois minutos mega rápidos: num momento estamos, no outro já não. Eu, tu ele... e depois?

Vem a saudade, a culpa de não termos aproveitado o momento...

O que fazer para contrariar a tendência?

Somos ou não o animal mais fantástico na terra?

domingo, 3 de outubro de 2010

Sara (um conto - cont.)

A mãe estava com um ar tão cansado que nem ligou.



Entretanto pegou na carteira e num casaquinho e disse:



- Bom, vou indo. Já sabem, volto às 7.30. - E saiu.



Olhou à sua volta, não sabia que fazer



Nesta altura pensou em Beatriz, na promessa que lhe fizera de conseguir de novo a sua velha vidinha de volta; no entanto ali estava com uma suposta velha nova vida, e Beatriz desaparecera. Deixou-se cair pesadamente num banco da cozinha desiludida, desesperada, pôs a cabeça entre as mãos e lamentou tudo o que até àquele momento criticara e menosprezara da sua vida. Lamentou a forma como até aí tinha tratado os seus pais, o seu irmão... a mãe.... Como ela queria de novo a sua mãe toda segura e autoritária, aquela mãe que não precisava de protecção pelo contrário, protegia. Esta era tão frágil, tinha um ar tão cansado... ela não queria essa responsabilidade, ela queria ser outra vez aquela adolescente irresponsável e crítica... um pouco mais moderada... “Meu Deus se me deres a minha vida de volta prometo que nunca mais me queixo e vou tentar ser uma filha melhor e uma irmã também. Por favor... “ Começou a chorar



De repente levanta a cabeça e lembra-se “ainda não fui ver em que local estou, a cidade... vou lá fora. Tenho que encontrar o caminho de volta”. Limpou a cara, secou as lágrimas, esboçou um sorriso grande para aliviar resíduos da sua mágoa e saiu.

Olhou à sua volta. Tudo era estranho, não fazia ideia aonde estava, sentiu uma angústia terrível “e se não conseguisse voltar de novo à sua vida? Ficaria sempre ali, presa naquele mundo desconhecido? Não! Tinha que encontrar o caminho de volta”



Pôs um pé à frente seguido do outro, e assim sucessivamente e começou a caminhar. Não sabia que direcção tomar nem para onde ir, mas continuou.



Andou, andou e foi ter a um descampado. Aí percebeu que não podia andar mais à deriva, pois não ia dar a lado nenhum. Percebeu que estava efectivamente perdida. Estava cansada, desesperada, queria gritar, chorar e queria sair dali.