quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Nesse instante ouve de novo a porta a bater.

- Olá! Tou cheio de fome!

André! Sara estava a viver um pesadelo. Era o André, com umas roupas todas rotas e o cabelo sujo.

- Tás a olhar? Nunca viste?

- Vá meninos não comecem. Hoje dói-me muito a cabeça e ainda tenho que ir trabalhar.

- Vais para o banco? Sara perguntou espantada. Eram 17.30h, horas da mãe ficar em casa, será que tinha um novo emprego?

- Para o banco? Que raio de pergunta é essa? Sabes perfeitamente que os bancos estão fechados a esta hora e que nós não temos relações de amizade com nenhum deles.- A mãe de Sara olhou para a sua cara pálida e começou a ficar preocupada. A filha estava estranha. –Estás bem filha? Que se passa?

- Tá é maluca, de certeza. Disse o André rapidamente. –Já reparaste como ela está vestida, mãe? Parece uma ricaça.

- Não me lembro efectivamente dessa fatiota filha!...

Sara, sentiu-se perfeitamente perdida, confusa, sem saber o que dizer.

- Foi... foi uma amiga minha, da escola, que me deu esta roupa.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Houve um episódio, numa das vezes em que foi para lá com os pais, que foi muito importante, pois durante uns tempos admirou-os de uma forma especial. Um miúdo esteve quase a afogar-se e quem se apercebeu de tudo foi a mãe de Sara. Foi ela que deu o alerta e foi o pai que salvou o miúdo. Durante uns tempos Sara teve um orgulho especial nos pais. Foi um episódio. Estes orgulhos duram pouco. Era isto que Beatriz esperava que ela se lembrasse. Virou-se para o lado para a questionar sobre o assunto, mas Beatriz desaparecera.

Olhou à sua volta e percebeu perfeitamente que já não se encontrava no mesmo sítio. Tinha voltado ao seu quarto, embora este lhe parecesse ligeiramente diferente, havia algo estranho. Teria estado tanto tempo longe que os pais já tinham modificado o quarto? Decidiu investigar.

Abriu a porta do quarto. A sensação mantinha-se. A casa era nitidamente diferente, muito mais pequena. Começou a ficar verdadeiramente assustada.

- Beatriz, Beatriz!

Chamou já com algum pânico na voz. Não compreendia o que se estava a passar, mais uma vez. Não seria muito novinha para passar por estas tribulações existenciais?

Meu Deus! Onde estava aquela que dizia ser a sua melhor amiga?

Resolveu arriscar. Tinha que ver os pais e o irmão. Começou a percorrer a casa, embora tivesse pouco que andar pois a casa era muito mais pequena que a dela. E a mobília? Tudo lhe parecia tão pobre. Estava já na cozinha quando ouviu uma porta bater. Virou-se...

- Ah já cá estás? Não tiveste a última aula?

Sara olhava para a mãe espantada. Era a mãe sem dúvida. Mas... estava mais velha, o cabelo já quase todo branco, curto. Que lhe tinha acontecido? Sara instintivamente agarrou-se à mãe e abraçou-a com toda a força. Esta surpreendida, sorriu e pensou “aconteceu qualquer coisa”.

- Está tudo bem filha?

Sara tinha os olhos esbugalhados, fixos na mãe

- Sim mãe tá tudo bem.

sábado, 25 de setembro de 2010

André (um conto) THE END

Nesse dia, 2ª feira quando fui para a escola vi o André com o João. Pareciam estar a ter uma conversa bastante importante, pois estavam afastados dos “amiguinhos” do João. Estavam bastante sérios, se isso é possível, dado que o João segurava um charro entre os dedos. Eu resolvi passar perto para ver se conseguia ouvir algo que me elucidasse do teor da conversa. Foi infrutífera essa minha tentativa, uma vez que se aperceberam da minha aproximação e, se calaram. Desisti e fui à minha vida.
- Sabes meu, as pessoas são tramadas, se não fossem elas, até que viver podia não ser mau, tás a ver? Por exemplo, eu gosto da natureza, ó meu, a natureza é linda o que a estraga são os homens...
João nitidamente paulado estava no pior estado que alguma vez André o viu. Estava profundamente deprimido, alguma coisa acontecera, mas André não fazia ideia do que podia ter sido. Resolveu levá-lo dali para fora porque daí a uns instantes alguém apareceria e levá-lo-ia directo ao Conselho Directivo.
Foram até a um sítio que ficava a meio caminho da praia e que João gostava muito, pois era muito sossegado e podiam estar à vontade. Aí João começou a contar-lhe dos pais da relação péssima que tinham, de como ele detestava o pai, etc. André ainda procurou dizer-lhe que a relação da maior parte dos pais era essa, mas ele não lhe deu tempo, saiu dizendo que tinha que vazar. André ficou perturbado e inquieto. Mais tarde, estava a sair de uma aula e vê ir ao seu encontro totalmente transtornada Cristina. Agarra-se a ele a chorar desesperadamente. Nesse momento André percebeu que algo de terrível se tinha passado.
Por entre soluços Cristina disse algo que nunca mais deixaria de ecoar dentro da sua cabeça:
- O João morreu!
João foi encontrado morto na praia, supostamente vítima de uma overdose. André sentiu o mundo rodopiar à sua volta agarrou-se a Cristina para não cair. Dois segundos depois saiu a correr e foi a casa do João. Não teve coragem de entrar foi para casa e enfiou-se na cama. Só saiu dela duas semanas mais tarde.
A mãe estava transtornada pela morte do João e pelo impacto que isso ia ter na vida de André. Não sabia como reagir, achou que o melhor era ficar ali ao lado do filho dando-lhe o apoio possível. Raul também se manteve por lá. Todos os dias ia lá a casa, era um bom amigo. André não falava com ninguém, nos primeiros dias fez febres altíssimas, o médico deu-lhe medicação para o acalmar e para baixar a febre mas nada mais podia fazer. Era uma situação emocional e provavelmente, só o tempo poderia atenuar toda a explosão que, a morte de João causou no André. Todos os dias, cada um de nós, ia até ao quarto de André estava lá uns minutos dizíamos qualquer coisa na tentativa de o animar e saíamos.
A mãe estava a ficar desesperada, até que na terceira semana André deu sinais de estar a sair dessa depressão. Como a mãe já tinha falado com a psicóloga que tinha estado com o André à uns anos atrás, tudo estava tratado para que assim que começasse a dar sinais de melhoras se iria proceder a um tratamento de forma a trazê-lo de novo à vida. E assim foi. Aos pouquinhos André foi recuperando. Eu vi que o meu irmão estava sem dúvida a melhorar e estava super feliz. 
- Olá miúdo como vai isso?
André estava no quarto a ler. Levantou os olhos e sorriu.
- Vai. Mas não precisas de te preocupar, vou melhorar e vou fazer algo para que a minha vida faça sentido… tenho a certeza que o João iria ficar contente.
Cristina também ela procurou ajuda e eu soube que ela estava internada a fazer um tratamento de desintoxicação. Outros houve que não, mantiveram-se na mesma rota de colisão e ruptura. O importante para mim, embora lamente os restantes é que o André vai de vento em popa… com alguns ventos desconcertantes, mas o saldo é positivo

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Quem sabe talvez um dia se pudesse dedicar à política e ajudar a mudar um pouco a visão das coisas? Não! Delirava. Queria lá saber das pessoas. Cada um que se arranjasse. Quanto aos pais, ninguém lhes tinha pedido que tivessem filhos. O que ela curtia mesmo era estar sem fazer nada, assim sossegada sem que ninguém lhe desse cabo do juízo. Era tudo muito complicado.

Beatriz continuava ali, do lado dela, silenciosa, apenas observando... Como gostaria de perceber o que se passava, porquê tanto mistério e tanto silêncio. Era suposto levá-la de volta ao seu quarto sã e salva.
- Bom, vais-me então dizer porque falaste do piquenique?
- Já te lembras de tudo?
Sara fez um ar espantado. Não percebia. Beatriz queria falar-lhe de algo especial, algo que acontecera nessa altura. Era só mencionar esse facto, que ela se lembraria. Porque tinha Beatriz de estar sempre com estes jogos de quebra-cabeça? De qualquer forma não tinha acontecido nada de importante. Foram todos para Trofa. Era habitual no Verão fazerem um passeio em família, para ficarem a conhecer um pouco mais o “lindo país em que vivemos” diziam os pais. Era sempre em altura de Feiras e faziam depois um tour turístico pelas zonas mais interessantes. E assim foi. Finalmente abancaram numa praia fluvial que creio se chamava Bairros e o rio era o Ave. Lembrava-se que era giro ir para a água porque não havia ondas, a água era calma e para ela, que era mais miúda na altura, não podia haver melhor. Ia muita gente para lá.. Lembrava-se... que engraçado como a memória surge sempre de uma forma encadeada, umas coisas puxam as outras.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

André (um conto - cont.)

André chegou a casa tarde. Tinha caminhado um pouco para alinhar ideias e disfarçar as olheiras do choro. Não se sentia criança nem adulto. Sentia a sua existência sempre entre contradições.

A mãe olhou para ele:

- São horas André? Quantas vezes te pedi para vires a direito? Será que me vais obrigar a ter que te ir esperar à saída da escola? Voltamos ao tempo da criancinha?

- Não stresses mãe, amanhã vou ter teste e tive com o Raul a ver umas coisas.

- Não podias ter avisado? Já sabes que prefiro que o faças cá em casa.

- Pois, pois. Também a mãe do Raul.

E lá foi ele para o quarto. Eu fui ter com ele.

- Posso? Então tiveste com o Raul? Que engraçado, eu tive com o Raul e tu não estavas lá! – André olhou-me surpreso.

- Ah , sim? Vais a correr contar à mãe?

- Qual é a tua André? Andas a bater mal todas as horas, ninguém sabe porquê, afastas as pessoas que realmente gostam de ti e misturas-te com essa corja de alucinados que anda para aí. Vais então ouvir aquilo que tenho para te dizer.

André e eu somos completamente diferentes. Eu questionei e questiono algumas das coisas que ele questiona, mas não vou fundo a plissar nos porquês, nos ques nos mas, nos se, etc. As coisas são como são e soluções não as vejo, por isso é andar em frente e deixar correr. Mas isto sou eu, o André é outra história.

- Julgas que vais conseguir o quê com este comportamento? Respostas às tuas perguntas? Resposta às tuas preces? Já estou farta de te ver assim André. E deixa-me dar-te uma novidade meu “querido irmão” a vida é assim, feita de coisas bonitas e feias, e para nós, a maior parte das vezes é uma porcaria. Outra novidade, faz parte do cresceres, passares por estas coisas e não te adianta nada bateres fundo porque as respostas não vêm daí, mas queres? Então vai de uma vez. Estou farta de ver a mãe pelo cantos da casa a rezar para que tudo esteja bem contigo, a andar a chatear tudo e todos por tua causa. Abre os olhos, não és o único na face da terra. Nasces, cresces e morres, ok? Nada, nada vai alterar isso. Quanto ao resto vais ter muito tempo para poderes intervir naquilo que achas que está mal. Deixa-te dessa postura de vítima e de egoísta profundo que já chateia... tenho dito!

Saí do quarto. Não sei se disse alguma coisa com sentido para todo o mundo e em particular para o André. Este manteve-se quieto.

Não sabia o que pensar. Já sabia que o discurso fazia algum sentido e daí? Que mudava? Não, não ia pensar em mais nada. Amanhã.

Ser ou não Ser

«... Cada pessoa que nasce deve ser
orientada para não desanimar com o
mundo que encontra à volta.
Porque cada um de nós é um
ente extraordinário, com lugar no céu
das ideias... seremos capazes de nos
desenvolver, de reencontrar o que em
nós é extraordinário, e
transformaremos o mundo.»

Agostinho da Silva

domingo, 19 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Dizia que eram todos uns exploradores, e que cada um deles andava lá, para resolver a sua vidinha, “maribando-se” para o “Zé Povinho”. “A verdade” dizia a mãe “é que o primeiro a ser tramado é sempre o povo. Esses camelos – dizia ela, ao telefone com a tia – ainda vêm para os jornais e televisão, chamar-nos a todos analfabetos e burros, fazendo afirmações que dão vida a um morto. Eles, na verdade assim nos querem manter, ignorantes e analfabrutos. Por um lado, fingem que querem tirar o país do analfabetismo aumentando a escolaridade obrigatória, por outro, aumentam as propinas, os preços dos livros e de todo o restante material. Não criam condições para que um pai possa manter o seu filho na escola. Depois, acusam-nos de “não participarmos” na vida académica dos nossos filhos e, para “facilitar”, marcam reuniões em horário laboral. Por um lado, promovem tudo o que é “Doutor”, tanto profissional como socialmente, por outro, limitam as vagas no ensino superior, entopem as saídas profissionais e alegam que nem toda a gente tem que ser doutor. A função pública dá prejuízo. Eles, políticos, como tal funcionários públicos, cujo ordenado é o único, em toda a classe, que está equiparado aos da Europa, passam a vida a achar que têm que ser aumentados, faltam que é um disparate, produzem a miséria que está à vista e quem paga tudo, é o desgraçado que obedece, que tem superiores, e que é obrigado a fazer o que lhe mandam. Mete-me nojo toda esta hipocrisia e, sinto um profundo desprezo por todos eles.” A mãe era uma revolucionária!

Detestava mesmo estas cenas. Resumindo: os pais são obrigados a trabalhar cada vez mais. Enfim, para Sara tudo bem, gostava era de sentir que valia a pena. A mãe trabalhava em dois sítios e o pai trabalhava 14 horas por dia. Apesar de tudo, Sara achava que lhe faltava muita coisa, pois os pais alegavam falta de dinheiro. Então quem lhe explicava como é que os pais a trabalhar assim, não tinham dinheiro para tudo e ainda tinham de ter tempo para eles? Às vezes, quando punha os neurónios a funcionar pensava nestas coisas e, achava que a vida e as pessoas, nem eram justas umas para as outras, nem tinham uma vida muito justa. Lembrava-se de alguns colegas, cujos pais ainda tinham mais dificuldades que os dela, e de como esses colegas eram piores alunos. Como o Joaquim, a quem a mãe de Sara deu explicações de borla. Um dia Joaquim foi lá a casa e a mãe perguntou-lhe se ele queria passar a fazer os deveres com a Sara. Ele disse que sim e, nesse ano tirou melhores notas e passou. A mãe dizia que ele era bastante inteligente, mas não tinha acompanhamento. “É uma pena” dizia ela. Joaquim tinha que tomar conta do irmão mais novo. De manhã, antes de ir para as aulas, levava-o a uma senhora que ficava com ele e depois da escola ia buscá-lo. A mãe do Joaquim que estava divorciada, saía muito cedo de casa e, chegava muito tarde. No ano seguinte a mãe do Joaquim voltou a pedir à mãe de Sara para ajudar o filho. Nesse ano no entanto, a mãe de Sara, viu-se aflita e obrigada a arranjar um part-time e não dispunha de tempo, daí que não se pôde comprometer. Ficou bem triste, pois sabia que sem uma ajuda o Joaquim se perderia. E assim foi. Joaquim nesse ano chumbou e Sara deixou de o ver com tanta frequência.

sábado, 18 de setembro de 2010

«Tem sempre presente que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos… mas o que é importante não muda:

A tua força e convicção não têm idade. O teu espírito é como qualquer teia de aranha. Atrás de cada linha de chegada há uma de partida.

Atrás de cada conquista vem um novo desafio.

Enquanto estejas viva, sente-te viva. Se sentes saudades do que fazias volta a fazê-lo.

Não vivas de fotografias amarelecidas…
Continua quando todos esperam que desistas.

Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.

Faz que em vez de pena te tenham respeito.

Quando não conseguires correr através dos anos trota. Quando não consigas trotar caminha.

Quando não consigas caminhar usa uma bengala. Mas nunca te detenhas



Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

- Detestaste, não foi?

Acenou com a cabeça ficando expectante em relação ao que se seguiria. Não se seguiu rigorosamente nada. Beatriz calou-se, emudeceu, perdeu o pio. Sara fixou-a atónita. É de loucos! Pensou que lhe ia fazer alguma revelação fantástica sobre o assunto, mas não...

Lembrava-se tão bem desse episódio. Tinha odiado, pois como já tinha referido, tinha ficado toda mordida e com uma valente constipação, para além de que tinha sido numa altura em que já não apreciava a companhia dos pais. Estes, procuravam promover estas tretas de família p’ra cá e p’ra lá. Era crónico. A maior parte dos seus amigos queixava-se do mesmo. Aliás esta cena de promover a família era uma treta social, que a chateava bué. Tanto falavam que os pais tinham que ter tempo para os filhos e no entanto os pais cada vez tinham que trabalhar mais. Ora, logicamente, mais tempo estavam fora de casa e, nem por isso percebia que os pais, se encontravam numa situação económica melhor. Pelo contrário. Continuava a ouvir os pais a lamentarem-se do peso dos impostos, do absurdo que lhes era exigido para terem alguma dignidade existencial. Das coisas todas que tinham comprar e que pagar. Muitas vezes ouvia a mãe dizer que “pagavam até o ar que respiravam”. Não é justo. O ar está poluído e só causa doenças, como podem obrigar as pessoas a pagá-lo? Sim, sim, os neurónios de Sara não eram assim tão maus, sabia perfeitamente que não se paga o ar que se respira sabia exactamente o que a mãe queria dizer. A mãe detestava a classe política portuguesa.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

André (um conto - cont.)

Começou a escurecer e já tinha chegado mais pessoal, era só cerveja e “ganza”. Cristina chegou perto do André e estendeu-lhe a mão entre cujos dedos se encontrava o “charro”

- Vá lá. Fuma. Vais ver que ficas muito mais liberto e não dói.

Cristina tinha 16 anos era já uma mulher feita em toda a acepção da palavra. Era daquelas miúdas muito populares, e muito bonita.

André olhou para o cigarro. Seguiu-se um silêncio pesado e expectante.

- Não obrigada. Aliás tenho que ir.

Que fazia ele ali, no meio daqueles frustrados todos? Ele sabia que de alguma forma fazia parte deles, mas ao mesmo tempo... algo o puxava ora numa ora noutra direcção. Sentou-se, pôs a cabeça entre as mãos e chorou.

Detestava a vida! Não entendia o significado de existirmos. A Mãe dizia que ele era muito novo para se preocupar com essas questões, tinha era que se divertir e fazer as coisas próprias da sua idade, além de que ela também não tinha respostas para todas as perguntas. Como se ele pudesse controlar o correr dos seus pensamentos. Preferia mil vezes nem pensar, não se questionar, não querer saber, só que isso não dependia dele. Tudo o que se passava na sua cabeça, André não controlava. Lutava constantemente, com aquilo que era supostamente o certo e aquilo que era supostamente o errado. Sabia que não queria fazer sofrer a mãe, não só porque gostava muito dela, mas porque a mãe já tinha sofrido muito por causa da droga: uma irmã da minha mãe da qual nenhum de nós se lembra muito bem, pois éramos muito pequenos suicidou-se. A mãe sofreu terrivelmente e André tem lembrança desse sofrimento, sem no entanto o saber explicar. No entanto, é a vida dele que terá que ser vivida e por vezes, prefere não pensar em ninguém a não ser nele próprio. A mãe diz que não pode querer trazer a si a responsabilidade das injustiças do mundo. Quando André está cara a cara com a mãe vê naquele olhos o desespero. O desespero de uma mãe que quer agarrar o filho que vai escorregando num leito de seduções perigosas. E sente que não lhe pode retribuir, ainda, um olhar de esperança.

We are one

Didn't need to ask
Don't know the reason
Everything that I believe
Is right here


Not thinkin' bout tomorrow
Couldn't catch it if I tried
World is spinning too fast
So I'll wait 'til it comes to me

I am you
You are me
We are one
Take me in your arms
And flow through me
I'll flow through you

Steal my breath away
Cause I'm so moved by you
Deeper than I ever thought
Was possible, was possible, it's everything, oh

Difference between me and you
It's all in where your heart lies
And every day's another chance
So let's get it right

I am you
You are me
We are one
Take me in your arms
And flow through me
I'll flow through you

Did you lose yoursef out there
Did you lose faith and give up
Don't turn away and hide yourself
Cause there's a friend to make along the way
We are the heartbeat and our souls speak
And all the beauty I have ever dreamed
Is right here in front of me, oh
Is right here in front of me, oh
I am you
And you are me
We are one
Take me in your arms
And flow through me
I'll flow through you

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

«Na verdade, Marilyn Monroe não estava completamente morta, estava apenas um pouco, às vezes um pouco mais. O seu charme, ao fazer nascer em nós um sentimento delicioso, impedia-nos de compreender que não é necessário estar morto para não viver. Começara a não estar viva desde que nascera.»



A verdade é que não precisamos de estar mortos para efectivamente estarmos. A maior parte de nós existe apenas porque sim. Os objectivos? São os que nos incutem numa sociedade capitalista, egocêntrica, narcisista e perdida… porque afinal somos nós. Claro que temos essa meia dúzia de “iluminados” que nos manipulam, controlam e nós ingenuamente acreditamos que temos fé, esperança, objectivos, e sei lá mais o quê. E no nosso pequeno micro cosmos também somos manipulados e manipulamos e tudo é um jogo de interesses para satisfazer…nem sabemos bem o quê.


«Quando a realidade morre, o delírio dá origem a uma maré de felicidade»


Somos marionetas no grande palco da vida (perdoem o cliché).


No Natal é ver todo o mundo pedir em prol de tudo e de todas as causas e mais algumas.


Surge uma calamidade, e é vê-los, esses que podem usar a imagem como chamariz, a realizar todo o tipo de eventos para angariar fundo e ajudas comunitárias em prol dos “coitadinhos das vítimas”.


Acabo sempre por me lembrar daquele fantástico filme com o Clive Owen e Angeline Jolie «Beyond borders» a fantástica cena em que ele (Clive Owen) irrompe uma homenagem a um filantropo, onde gastaram montes de dinheiro e ele, aparece com uma criança africana subnutrida… e depois toda a cena seguinte que é indescritível de tão poderosa, só mesmo vendo. E é assim, fazemos para sermos vistos, homenageados e limparmos quiçá a alma?????


Na nossa vida são tão poucas as respostas, e tantas as perguntas…


E no entanto passamos gerações e gerações a falar dos erros da história e a cometê-los no presente. Falamos do Holocausto. E quantos tem proliferado na actualidade, quanta violência e atrocidades, quanta tortura e maldade, que para muitos de nós é inimaginável, se comete HOJE em nome de tudo e mais alguma coisa. Mas nós continuamos a falar do holocausto. Já foi, não é, nós não somos culpados… bem mais fácil… continuamos a fazer de conta e continuamos permissivos a tudo isso e a repeti-lo vezes sem conta…


Não consigo perceber o que faz de nós esse ser superior. Nem é por uma questão de sobrevivência, é mesmo pura maldade. Somos nós melhores que os animais ditos irracionais? Não me parece… mas continuamos agarrados a uma existência efémera e volátil e continuamos as nossas proezas de barbárie.


Bom, depois existem aqueles que acreditam que vão fazer a diferença apelando, mostrando, tentando agrupar e manifestar as suas crenças na mudança do próprio ser humano … que cínica, afinal não existe solução?


2010 Anos após o nascimento de Cristo e não vejo evolução. As diferenças, a crueldade, a ambição,
 a maldade, a inveja mantêm-se inalteráveis no ser humano e na sociedade… e nós homens e mulheres cada vez mais distantes uns dos outros. Não nos entendemos, não nos percebemos e, cada vez, nos afastamos mais uns dos outros porque, nem sequer sabemos se o que queremos é o que realmente deve ser ou o que tem que ser. Porque nos tornamos os nossos próprios inimigos. E…que pena. Porque juntos fazemos coisas tão boas…quando queremos.


Ah! e a hipocrisia que graça como erva daninha em todo o lado: no Estado, nos governos, nos políticos, nos chefes, nos colegas, nos vizinhos e até na própria família.

Que seres tão estranhamente perversos e burros… somos, não somos?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

André (um conto - cont.)

- Sempre vieste.

- Pois, mas não vou ficar muito tempo.

André olhou para o João. Já estava “pedrado”. André sentiu um nó. Não conseguia esquecer a imagem que o tem massacrado nestes últimos tempos.

Estavam na aula de História o João fica na fila imediatamente a seguir à do André e numa carteira um pouco mais atrás. André sem nenhuma razão aparente , resolveu virar a cabeça e olhar por cima do ombro para o João. Ficou paralisado, todo o sangue se escoou, ficou branco como a cal, com os olhos pregados ao pé do João: ele estava a injectar-se... no pé...na aula de história. André ficou colado àquela imagem, até ao momento que Raul lhe tocou e disse:

- Então meu, que se passa.? Porra! Pareces que viste o diabo em pessoa. Tás branco meu. Tás bem?

Raul olhou na direcção que o André olhava: João estava aparentemente normal, ou seja, o normal dele. Raul não estava a perceber.

- André!

- Estou bem. Responde como se tivesse vindo de muito longe.

A aula acabou e essa imagem nunca mais o deixou.

Agora olhava de novo para o João, mais uma vez “pedrado” e pensava como é que isso podia agarrar as pessoas, aprisioná-las. No entanto João era um sujeito esperto, André sentia-lhe uma força, de alguma forma admirava aquele sujeito. Já tinha pensado várias vezes, experimentar só fumar, ele era avesso às injecções. Se a mãe sonhasse...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Já se tinham esquecido da Beatriz e de como chegamos até aqui? Pois então Beatriz continuou a falar sem parar, enquanto a Sara navegava noutras ondas. Nesta altura Beatriz, apercebendo-se que faziam viagens diferentes, estacou o passo e perguntou:
- Sara porque não me ouves?

- Sara surpreendida com o flagrante, respondeu-lhe, que estava a prestar atenção a tudo.

- Não te sabia mentirosa. - E fez um ar de profunda tristeza, que impressionou Sara.

- Meu Deus! Também não precisas de ficar assim. Tá bom. Não estava a prestar atenção. Tenho outras coisas em que pensar. Tenho uma vida, sabias?

- Pois é dela que te quero falar. Vai ajudar-te a sair daqui. Não é isso que queres?

Sara olhou-a. Já lhe parecia a mãe. Também a quereria obrigar a usar os neurónios? Estava condenada. Tinha que pôr a cuca a funcionar duma maneira ou doutra. Bom, era melhor prestar-lhe atenção.

- Lembras-te daquele fim-de-semana em que foste com os teus pais fazer um piquenique e acabaste toda mordida pelos mosquitos, com uma valente constipação?

Fantástico! De todas as suas memórias, tinha que lhe ir buscar uma bem chata e da qual preferia nem se lembrar.

- Sim...?