sábado, 31 de julho de 2010

Esperança



Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que ouve apenas o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio dum vinho herético e sagrado.
 
Miguel Torga

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O amor
Essa dor,
Esse desejo,
Esse desespero de querer
De ter
Essa força que nos arrasta
Que nos tortura e nos mata


Esse poder devastador que nos consome
E que chega e vai sem nunca permanecer
Que nos impele para a frente e para trás
Que nos envolve em contradição
Que nos sacia a dor que nos criou

A fome que provocou
E de repente vai-se.
Não se despede, não ouve os gritos
Não se compadece da solidão que deixa
Vai e não se sabe se volta
O amor……..

M.S.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Hoje...

Hoje acordei às 5h com a cabeça a fervilhar (o que vai sendo normal). Pensava em Stephen Hawking, porque tinha estado a ver um vídeo que disponibilizo aqui neste lugar… pensava nas três coisas que ele considerou serem importantes realmente: primeiro olha para as estrelas em vez de olhar para os pés; nunca desistas do trabalho porque só ele te dá significado e objectivo, sem isso a vida é vazia; e finalmente se encontrares o amor (o que é raro) dizia ele agarra-o, não o deixes fugir…
No meio deste discurso “profundo” a repórter diz que o conselho de que se lembra melhor que os pais lhe deram, foi o de escovar sempre o cabelo atrás e não só à frente, (obviamente e metaforicamente falando) ao que a filha de Stephen Hawking respondeu com um sorriso que, também era um bom conselho porque se reparar, se só olharmos para as estrelas podemos ir de encontro a um poste… Stephen Hawking sorriu. Sorriu com o único músculo do seu corpo que ainda mexe: um músculo facial.



O que ele gostava de saber era porque existe o universo, porque há algo mais que o nada?



Eu apenas gostava de conhecer o ser humano…ele acha que a vida humana é tão insignificante e acidental neste imenso universo (sem dúvida) e eu só quero perceber porquê, então.



Vou cair talvez num daqueles textos lamechas e “clichés” em que me debato com as minhas próprias contradições da minha existência, de ser o que sou e como sou… e os porquês etc.



Não é minha intenção!



Mas porque nos debatemos com um pouco de celulite, uma ruga, duas, um pouco de peso a mais, umas gorduritas aqui e ali, que desesperamos e deprimimos face à resposta que dentro da nossa cabeça obtemos e, ele que só mexe um músculo facial, acredita que se pode encontrar o amor? O que faz existirem seres excepcionalmente diferentes (num micro universo de seres humanos em relação ao macro universo de Stephen Hawking)?



Acima de tudo e para além de muitas outras coisas preocupa-me a capacidade de sermos profundamente hipócritas e incoerentes. Não falo das razões óbvias que encontramos todos os dias, nas notícias, nas relações entre as pessoas, falo de quando nos entregamos a um projecto de alma e coração e mesmo assim não conseguimos sair de nós próprios e tentarmos melhorar.



Passo a dar um exemplo concreto (quero que saibam que me incluo nestes seres deformados seja lá pelo que for):



Estou a acabar uma licenciatura. Como muitas outras têm a parte filosófica ou teórica e a parte prática, mas não é essa a questão. Esta licenciatura tem uma tónica muito especial, de tentar rumar à excelência e à qualidade; procura ao longo da sua existência e mais além (mestrado) apetrechar as pessoas de ferramentas, metodologias, conhecimento que lhes permita na vida activa usarem-nas com o verdadeiro propósito de melhorarem as relações de processos, de pessoas, enfim de todos aqueles que estão envolvidos com os mesmos, com vista a uma melhoria global de toda uma instituição.



No entanto na gestão da licenciatura esses objectivos são tão facilmente deturpados e manipulados… porquê? Porque existem pessoas que vão sair sem nada terem aprendido, sem apetrechos para utilizar, sem maturidade sequer para perceber a importância de tudo aquilo que lhes estão a tentar ensinar.



Mas eles nem consciência disso têm. Mas os professores esses sim. Esses sabem que este e aquele enfim… mas acabam a licenciatura. A minha pergunta está como se pode rumar em relação à excelência e qualidade quando aqueles que deveriam ser os portadores do “facho” dos mesmos, não carregam nada… onde está a coerência disto? Sim, somos todos pessoas muito ocupadas, e também devemos responsabilizar cada um pelos seus próprios actos… justificações para as nossas limitações… o que acontece nesta, acontece noutras licenciaturas…infelizmente na maior parte, senão em todas.



Mas então quanto tempo mais, vamos demorar a evoluir, se de cada passo que damos caímos num poço sem fundo… e depois para sairmos dele…



«God palying dice with the world» Stephen Hawking



Alquimia das palavras

O Feiticeiro precisava urgentemente de encontrar uma poção que desfizesse a confusão gerada pelo Hipérbato na corte da Rainha Metáfora e do Rei Eufemismo. Como sempre o Hipérbato causava confusão e fugia.
Chamaram à corte o Assíndeto, a Elipse e a Onomatopeia e pediram-lhes se havia alguma possibilidade de resolver o problema causado pelo Hipérbato. Os três tentaram. Primeiro, cada um, e depois os três, mas não conseguiram.
A rainha e o rei começaram a ficar desesperados e foi assim que chamaram o Feiticeiro Escritor e pediram-lhe que arranjasse uma poção miraculosa que conseguisse aquilo que parecia ninguém conseguir.
O Feiticeiro Escritor voltou para o seu laboratório, de forma a poder concentrar-se e tentar encontrar a solução.
Inicialmente foi buscar as ervas: pleonasmo, gradação e enumeração juntou-as com uma pitada paralelismo e … deu um grande estouro! Partiu-lhe várias coisas no laboratório e nada resolveu a não ser criar ainda mais confusão. Frustrado, o Feiticeiro Escritor saiu e foi dar uma volta para espairecer as ideias.
Voltou e pensou que tinha encontrado a solução. Foi para o castelo ter com a Rainha Metáfora e o Rei Eufemismo e deu-lhes a solução: “mandem chamar a Antonomásia, a Imagem e o Anacoluto” exclamou ele! Logo de seguida lá estavam as três esperando receber ordens.
“Procurem o Hipérbato que gerou toda esta confusão e tragam-no à minha presença”. Assim foi, procuraram o Hipérbato por todo o sítio, mas não o conseguiam encontrar. Por um golpe de sorte alguém o tinha visto fugir para o reino vizinho e foram lá buscá-lo.
O Feiticeiro Escritor encontrava-se agora frente ao Hipérbato e à confusão gerada por ele: «Estas sentenças tais o velho honrado vociferando esta»; o Feiticeiro Escritor pegou nos três: Antonomásia, a Imagem e o Anacoluto e pediu-lhes para resolverem o problema. Assim fizeram: «O velho honrado estava vociferando, – estas sentenças tais –»
O Rei e a Rainha e toda a corte exclamaram de contentamento e deram vivas aos intervenientes e premiaram o Feiticeiro Escritor.
No reino da Alquimia das Palavras tudo voltou a ser como dantes… por pouco tempo!