quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Soneto de amor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
Sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
Que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
Não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
Ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
Nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo
~

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Saiu para a rua

Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura
Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho
Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura

Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura


Carlos Tê

sábado, 27 de novembro de 2010

Mudança

Estou a mudar!

Não é aquela mudança soft fruto da acumulação de pequenas incursões ao “reino dos malditos”. É uma mudança “inside-out”. Apercebo-me por pequenas coisas que poderão até parecer supérfluas mas que me revelam, efectivamente, a mudança.
Passo a explicar. Fui a uma perfumaria não com o objectivo de comprar o que quer que fosse mas porque tenho que aproveitar os momentos em que o meu “faro” funciona e poder assim escolher um cheiro que me agrade e a espelhe a pessoa que sou, ou que penso que sou. Tenho alguma dificuldade de gostar verdadeiramente de uma variedade de cheiros, melhor dizendo, que me traduzam. Já o uso um há bastante tempo e embora continue a gostar dele penso que está na altura de mudar “Ange ou Demon – Le Secret”.
Uma característica dos cheiros que me seduzem é o serem frutados. Para os que estão menos a par deste lado da vida do “olfacto”, os frutados são perfumes que possuem na sua essência cheiros de fruta e há variadíssimos, depois há os florais, os frescos, enfim uma panóplia de cheiros inebriantes que nos tocam, mal ou bem, mas afectam-nos.
Isto para vos fazer entender então a mudança.
Estava eu na perfumaria e cheiro daqui e cheiro dali e, curiosamente, aqueles que em tempo gostei já não exerciam sobre mim, nenhum poder.
Fiquei estupefacta e pensei “Minha nossa que se passa comigo? Nada me agrada?” Estava realmente preocupada pois, os comentários mais populares que recebo são, a criticar o facto de, segundo os que me criticam, ser muito esquisita, exigente e inflexível. Portanto pensei “isto está a tornar-se uma doença. Será que há medida que envelheço me vou tornar numa daquelas pessoas muito, muito chatas que só elas e só no tempo delas é que era bom?”
Depois de muitos cheiros descobri finalmente um que me agradou especialmente. Mas e já não falando no facto de ser só um (óbvio que não experimentei todos, não há nariz que resista), este não era frutado e sim floral. Nunca gostei muito de cheiros florais. No entanto este seduziu-me completamente.
Claro que não o comprei. Por acaso era bastante caro. Saí da perfumaria a pensar “que estranha coisa… estou mesmo a mudar”.
Esta mudança tem-se vindo a insinuar em algumas situações da minha vida. Esta foi uma passível de ser descrita, tranquila e pouco relevante, mas outras há que o não são. No entanto eu sinto a mudança e isso assusta-me. Assusta-me ser uma estranha para mim própria e não perceber que reacções poderei ter em relação a muitas coisas, que gostos poderei revelar que até agora desconhecia. Sair do lugar de conforto e do habitual e transformar-me de forma a revelar-me o meu próprio e grande desafio.
Por outro lado não deixa de ser interessante. Afinal queixamo-nos todos da monotonia da vida, da rotina, do não-surpreendente, e eu em pleno “Outono existencial” a querer transformá-lo novamente na Primavera!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Coisas simples

As coisas simples da vida são aquelas que nos dão mais prazer sem mesmo nos apercebermos.

Ontem fui almoçar com dois amigos e colegas. De repente estávamos os três a reviver bons velhos/recentes tempos em que andávamos a estudar. Como colegas tínhamos um grupinho habitual de partilha, discussão de conhecimento e “borga”.

Vai daí estava eu num momento de flashback com a minha amiga e dizia-lha “lembras-te no 1º ano que cada palavra cada palavrão? Agora estás bem melhor!” Afirmei com um sorriso de missão cumprida e ao mesmo tempo de Parabéns.

Quinze minutos mais tarde saímos os três para almoçar. No caminho fomos recordando alguns troços desse passado recente e do qual tínhamos saudades. Nem a propósito a minha amiga estava super, mega soft, nas palavras que escolhia. Eu pensava bem não há nada como um banho longo e demorado de cultura conhecimento e bom convívio.

Chegamos ao snack sentamo-nos a comer e a falar. Surgiram assim os planos para o próximo ano e claro que a ideia era fazermos algo que pudéssemos fazer juntos. Eu e a minha amiga já tínhamos conversado sobre o assunto e estávamos decididas a fazer o mestrado.

Com um copito de cerveja começou a minha amiga a trazer algumas situações da sua vida peculiar. Uma delas prendia-se com um “encontro imediato” que teve num supermercado.

Pronto! A partir do relato desse encontro foi palavra, palavrão, depois palavrão, palavrão, palavra, palavrão, palavrão, palavrão, palavrinha. Às tantas e apesar de estar a achar piada disse-lhe “bem querida estragaste o elogio que te fiz. Afinal para cada palavra continuas a ter vários palavrões para a enfeitares”. Logo me responde “olha nem a propósito. Aqui há tempos estava eu com umas colegas minhas (tinha feito uma formação para formadores) e até falei de ti. Disse-lhes que tinha uma amiga que sempre que eu dizia vou mi… me dizia ai não digas isso diz antes vou ao W. Então eu na vez seguinte disse-lhe olha M vou ao W e ela toda contente sorriu e eu logo de seguida disse mi… Lembras-te” Eu desatei a rir e percebi que há coisas que não mudam.

São as coisas simples da vida. São aquelas que nos dão mais prazer sem mesmo nos apercebermos e as que permanecem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Angústia...para todas as refeições

Não sei quem pode partilhar desta minha angústia…


Mas cheguei a um patamar em que me vejo obrigada a repensar o eu-eu, o eu-outro e o eu-outros. Percebo que não é muito “normal” a meio do percurso VIDA mantermo-nos rebeldes, atípicos e inconformados. Porquê? Depois de galgados quilómetros, milhas, etc., de apanharmos lambada, coça, decepções, estaremos suficientemente domesticados, domados para finalmente baixarmos os braços e sucumbirmos ao sistema.

Depois temos o “Grilo Falante” que nos grita “Vais desistir? Vais deixar de ser quem és? Quem sempre foste?” E pensamos que se por um lado ele tem razão por outro, este caminho que temos vindo a percorrer deve-nos ter ensinado qualquer coisa que nós temos obrigação de ter assimilado, aprendido e apreendido. Mas será que a mudança tem que ser para nos tornarmos iguais aos outros, sucumbirmos ao sistema?




Ao ouvir e ver alguns vídeoclips de música da minha juventude e de ver esses que tão diferentes eram e que hoje estão total e completamente absorvidos pelo global, penso, que aconteceu? Onde estão esses que me inspiraram a ser como sou hoje? Que lhes aconteceu? Porque se existem pessoas capazes de fazer a diferença valer a pena são aqueles que são visíveis… mas isto é o que vejo do lado de fora.

E assim percebo! Percebo que chegado a este patamar a maior parte já não tem forças para continuar e ninguém já tem paciência para nos aceitar com o nosso inconformismo, o nosso idealismo que caracterizam de ingénuo e imaturo. Assim é muito mais fácil sucumbir, desistir engolfarmo-nos na aceitação social. Porque o outro lado da moeda é a solidão, as críticas, a incompreensão, a exclusão. E tudo isso vem com o peso acrescido da idade e dos fantasmas que fomos acumulando, também, nesta longa-curta caminhada.

Continuo a chafurdar na angústia de perguntas sem respostas e respostas que me deixam angustiada…

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Cartaz que representou a licenciatura de LCI 2007/2010 no BOBCATSSS -
a Library and Information Science Conference

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pergunto quem são os Régios, Torgas, Agostinhos da Silva...

Pergunto quem são os Régios, Torgas, Agostinhos da Silva, etc., deste tempo? O tempo só dá tempo para o imediato e acima de tudo para o materialismo… a velocidade do tempo não dá tempo para olhar para o céu, para mim e para ti… 

O amor! Não há tempo para o amor. Tempo há, para o sexo imediato, para as relações flash ou convenientes. O tempo escapa-se-nos entre os dedos e os intervalos da chuva.
Não há tempo a perder, só perdemos tempo com a volatilidade das coisas que são no momento e no momento deixam de ser. 

Preservamos a memória colectiva, o conhecimento (?) mas onde está ele? Que preservamos há pelo menos 2000 anos? Que tempo nos deu? O tempo… os homens…
Não há tempo a perder. Perdemos com o tempo a salvação de sermos nós com os outros e os outros connosco… Sucesso, visibilidade, poder, dinheiro tempo há para tudo isto.
Diz-se que o tempo cura todas a feridas mas o tempo não dá tempo ao tempo de tornar isso uma realidade. Assim as feridas não são curadas e o tempo não tem tempo para perceber que é preciso ter tempo para ter tempo.

E assim onde param os Régios, Torgas e Agostinhos da Silva do nosso tempo?

Não há tempo a perder e pensar é uma perda de tempo. Tempo, temos que ter para agir, não para pensar. É o tempo que temos: o imediato, o agora. E o tempo do futuro, dizem, é-nos assegurado pelo tempo de agora. E tempo há para lavar cérebros e cordeiramente encaminhá-los no tempo sem tempo. Não há é tempo para pensar, reflectir, sonhar…
O tempo não dá tempo ao tempo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Dúvida

Olhar para nós contínua a ser o meu maior desafio. Porque olho, olho, reflicto, olho, analiso e… ainda assim… somos MAUS! Claro que sendo uma generalização sofre de verdade absoluta, no entanto procuro comparar o SER HUMANO com os ditos animais irracionais.

As diferenças? Nós utilizamos a violência gratuitamente os animais irracionais só por questões de sobrevivência. Nós rivalizamos e competimos porque somos egoístas e estúpidos, os animais irracionais por questões de sobrevivência. Nós destruímos, espezinhamos, violentamos… por razão nenhuma.

Mas na consciencialização de tudo isto o que me deixa profundamente incrédula, estupefacta, siderada é conseguirmos justificar todos estes actos e acreditarmos que tem que ser. Mais, mesmo quando são actos contra nós próprios arranjamos lá num canto do nosso ser... Cérebro, alma... Essa mesma desculpa. Sim! E aí sim é por razões de sobrevivência.

Perdoem o cliché mas nesta selva de betão e tecnologia, já não há tempo para a reflecção e para a acção em conformidade; serve-se apenas o imediato, o bajulismo, a hipocrisia e voltamos ao Estado Novo disfarçado de Democracia. Diz-se o que não se faz e faz-se o que não se diz e cordeiramente baixamos a cabeça e cordeiramente aceitamos as palavras pelas palavras e os acto pelos actos. Quando falo "em aceitamos" falo total e completamente por mim, se bem que outros o façam, eu, estando consciente deixo-me levar...

Pedem-me que desista de mim, daquilo em que acredito. Pedem-me que "cresça" sendo crescer aceitar sem questionar, sem objectar, cordeiramente a "verdade" dos outros, a "maturidade"... pedem-me que deixe de ver arco-íris quando chove e faz sol... pedem-me que deixe de estremecer sempre que ouço uma música linda... pedem-me que deixe de crer em mim e nos outros... De crer que os meus filhos possam ter um mundo melhor...

No entanto, pedem-me para crer no outro que se julga acima de tudo e de todos porque, no momento, detém o poder.

Momento. É a palavra que pode fazer a diferença. Porque neste caminho tortuoso que é a vida, mais me apercebo da efemeridade e precariedade, volatilidade de tudo, sem lugar para a preservação... Até porque já à nascença as coisas estão a morrer. Porquê então o surreal absurdo da hipocrisia? O surreal absurdo da mentira, do egoísmo?

O meu verdadeiro surreal absurdo dilema é saber se continuarei a embarcar no surreal absurdo teatro da vida cordeiramente, desistindo de… OLHAR O CÉU!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Silêncio

Quando chegamos àquele momento na vida em que depois de tantas batidas e liçoes ficamos em silêncio... inertes, mudas, quedas...
É o momento, aquele da viragem: ou rebentamos com tudo e connosco ou perdemos e desistimos.
Mas esse momento é um momento tortuoso e "eterno". A solidão toma conta de nós, a comiseração também. E percebemos então que a vida é um percurso "pleno" de solidão e que não há expectativas, apenas traços indeléveis de desejos espelhados nas nuvens.
Percebemos que temos sido pequenas marionetas embebidas dos sonhos de outros, que vamos continuar a acreditar nos momentos melhores e a sonhar porque é assim a estratégia da sobrevivência. Somos sobreviventes acima de tudo da nossa ignorância e ambição. Somos sobreviventes a nós e aos outros.
E caminhamos nesse momento tortuoso e eterno sofrendo, sangrando, em silêncio.
Em silêncio optamos.
Em silêncio actuamos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.

Declamei,

Atirei frases em volta.

Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,

A carvão, a sangue, a giz,

Sátiras e epigramas nas paredes

Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi

Que nada me dariam do infinito que pedi,

- Que ergui mais alto o meu grito

E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,

Eis a razão das épi trági-cómicas empresas

Que, sem rumo,

Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava

Era, como qualquer, ter o que desejava.

Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,

Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado

Sair deste meu ser formal e condenado,

Erigi contra os céus o meu imenso Engano

De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!

Nu a teus pés, abro o meu seio

Procurei fugir de mim,

Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,

Sofro por este chão que aos pés se me pegou,

Sofro por não poder fugir.

Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!

(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)

Senhor dá-me o poder de estar calado,

Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,

Nunca os usei nem usarei,

Se nada do que levo a efeito vale,

Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,

Era por um de nós. E assim,

Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,

Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior

Do que a própria imensa dor

De compreender como é egoísta

A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros

Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,

E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,

E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,

Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.

E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.





José Régio, in 'As Encruzilhadas de Deus'

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Medo

Esta noite vi um filme que me trouxe a memoria mais intensa que guardei num cantinho seguro do meu consciente. O suicídio, a solidão, o desespero, a impotência e a culpa.


Cantinho seguro porque sendo a memória dolorosa, preciso que esteja perto para recordar a pessoa que amava.Revi-me total e completamente na dor expressa, fabulosamente, nesse filme. O nome inicialmente nao me despertou grande curiosidade "A mente dos famosos". Mas acabou por me interessar dado o actor principal ser o Kevin Spacey.

A vida e tao efémera e, apesar desse facto (que o é) e de ele nos estar sempre a ser lembrado, incorremos rotineiramente no mesmo comportamento estupido, mesquinho arrogante e intolerante. Apesar de constantemente stay on the edge (pelo menos a mim acontece com frequência) continuamos prepotentes e violentos...

O que nos faz desejar tanto espezinhar o outro? Que receamos no outro? Só pode ser medo! É o medo que traz ao de cima o pior de nós e revela-se das mais estranhas formas... Aliás é o medo que nos governa, que nos tolhe e nos cerca. É o medo que nos impede de evoluir que, nos sufoca na mediocridade do que é efémero, do que é, e é o medo que nos impede de alcançar o que não é.

Assim sim, entendo que a evolução seja acima de tudo nas coisas do ser e não no ser.

Pergunto: evolução para quando?

As trevas. São agora, já foram e voltarão a ser.

Afinal era tão fácil. Ser feliz. Permitir-nos ser livres. Não termos medo. Isto, a vida, são dois minutos mega rápidos: num momento estamos, no outro já não. Eu, tu ele... e depois?

Vem a saudade, a culpa de não termos aproveitado o momento...

O que fazer para contrariar a tendência?

Somos ou não o animal mais fantástico na terra?

domingo, 3 de outubro de 2010

Sara (um conto - cont.)

A mãe estava com um ar tão cansado que nem ligou.



Entretanto pegou na carteira e num casaquinho e disse:



- Bom, vou indo. Já sabem, volto às 7.30. - E saiu.



Olhou à sua volta, não sabia que fazer



Nesta altura pensou em Beatriz, na promessa que lhe fizera de conseguir de novo a sua velha vidinha de volta; no entanto ali estava com uma suposta velha nova vida, e Beatriz desaparecera. Deixou-se cair pesadamente num banco da cozinha desiludida, desesperada, pôs a cabeça entre as mãos e lamentou tudo o que até àquele momento criticara e menosprezara da sua vida. Lamentou a forma como até aí tinha tratado os seus pais, o seu irmão... a mãe.... Como ela queria de novo a sua mãe toda segura e autoritária, aquela mãe que não precisava de protecção pelo contrário, protegia. Esta era tão frágil, tinha um ar tão cansado... ela não queria essa responsabilidade, ela queria ser outra vez aquela adolescente irresponsável e crítica... um pouco mais moderada... “Meu Deus se me deres a minha vida de volta prometo que nunca mais me queixo e vou tentar ser uma filha melhor e uma irmã também. Por favor... “ Começou a chorar



De repente levanta a cabeça e lembra-se “ainda não fui ver em que local estou, a cidade... vou lá fora. Tenho que encontrar o caminho de volta”. Limpou a cara, secou as lágrimas, esboçou um sorriso grande para aliviar resíduos da sua mágoa e saiu.

Olhou à sua volta. Tudo era estranho, não fazia ideia aonde estava, sentiu uma angústia terrível “e se não conseguisse voltar de novo à sua vida? Ficaria sempre ali, presa naquele mundo desconhecido? Não! Tinha que encontrar o caminho de volta”



Pôs um pé à frente seguido do outro, e assim sucessivamente e começou a caminhar. Não sabia que direcção tomar nem para onde ir, mas continuou.



Andou, andou e foi ter a um descampado. Aí percebeu que não podia andar mais à deriva, pois não ia dar a lado nenhum. Percebeu que estava efectivamente perdida. Estava cansada, desesperada, queria gritar, chorar e queria sair dali.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Nesse instante ouve de novo a porta a bater.

- Olá! Tou cheio de fome!

André! Sara estava a viver um pesadelo. Era o André, com umas roupas todas rotas e o cabelo sujo.

- Tás a olhar? Nunca viste?

- Vá meninos não comecem. Hoje dói-me muito a cabeça e ainda tenho que ir trabalhar.

- Vais para o banco? Sara perguntou espantada. Eram 17.30h, horas da mãe ficar em casa, será que tinha um novo emprego?

- Para o banco? Que raio de pergunta é essa? Sabes perfeitamente que os bancos estão fechados a esta hora e que nós não temos relações de amizade com nenhum deles.- A mãe de Sara olhou para a sua cara pálida e começou a ficar preocupada. A filha estava estranha. –Estás bem filha? Que se passa?

- Tá é maluca, de certeza. Disse o André rapidamente. –Já reparaste como ela está vestida, mãe? Parece uma ricaça.

- Não me lembro efectivamente dessa fatiota filha!...

Sara, sentiu-se perfeitamente perdida, confusa, sem saber o que dizer.

- Foi... foi uma amiga minha, da escola, que me deu esta roupa.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Houve um episódio, numa das vezes em que foi para lá com os pais, que foi muito importante, pois durante uns tempos admirou-os de uma forma especial. Um miúdo esteve quase a afogar-se e quem se apercebeu de tudo foi a mãe de Sara. Foi ela que deu o alerta e foi o pai que salvou o miúdo. Durante uns tempos Sara teve um orgulho especial nos pais. Foi um episódio. Estes orgulhos duram pouco. Era isto que Beatriz esperava que ela se lembrasse. Virou-se para o lado para a questionar sobre o assunto, mas Beatriz desaparecera.

Olhou à sua volta e percebeu perfeitamente que já não se encontrava no mesmo sítio. Tinha voltado ao seu quarto, embora este lhe parecesse ligeiramente diferente, havia algo estranho. Teria estado tanto tempo longe que os pais já tinham modificado o quarto? Decidiu investigar.

Abriu a porta do quarto. A sensação mantinha-se. A casa era nitidamente diferente, muito mais pequena. Começou a ficar verdadeiramente assustada.

- Beatriz, Beatriz!

Chamou já com algum pânico na voz. Não compreendia o que se estava a passar, mais uma vez. Não seria muito novinha para passar por estas tribulações existenciais?

Meu Deus! Onde estava aquela que dizia ser a sua melhor amiga?

Resolveu arriscar. Tinha que ver os pais e o irmão. Começou a percorrer a casa, embora tivesse pouco que andar pois a casa era muito mais pequena que a dela. E a mobília? Tudo lhe parecia tão pobre. Estava já na cozinha quando ouviu uma porta bater. Virou-se...

- Ah já cá estás? Não tiveste a última aula?

Sara olhava para a mãe espantada. Era a mãe sem dúvida. Mas... estava mais velha, o cabelo já quase todo branco, curto. Que lhe tinha acontecido? Sara instintivamente agarrou-se à mãe e abraçou-a com toda a força. Esta surpreendida, sorriu e pensou “aconteceu qualquer coisa”.

- Está tudo bem filha?

Sara tinha os olhos esbugalhados, fixos na mãe

- Sim mãe tá tudo bem.

sábado, 25 de setembro de 2010

André (um conto) THE END

Nesse dia, 2ª feira quando fui para a escola vi o André com o João. Pareciam estar a ter uma conversa bastante importante, pois estavam afastados dos “amiguinhos” do João. Estavam bastante sérios, se isso é possível, dado que o João segurava um charro entre os dedos. Eu resolvi passar perto para ver se conseguia ouvir algo que me elucidasse do teor da conversa. Foi infrutífera essa minha tentativa, uma vez que se aperceberam da minha aproximação e, se calaram. Desisti e fui à minha vida.
- Sabes meu, as pessoas são tramadas, se não fossem elas, até que viver podia não ser mau, tás a ver? Por exemplo, eu gosto da natureza, ó meu, a natureza é linda o que a estraga são os homens...
João nitidamente paulado estava no pior estado que alguma vez André o viu. Estava profundamente deprimido, alguma coisa acontecera, mas André não fazia ideia do que podia ter sido. Resolveu levá-lo dali para fora porque daí a uns instantes alguém apareceria e levá-lo-ia directo ao Conselho Directivo.
Foram até a um sítio que ficava a meio caminho da praia e que João gostava muito, pois era muito sossegado e podiam estar à vontade. Aí João começou a contar-lhe dos pais da relação péssima que tinham, de como ele detestava o pai, etc. André ainda procurou dizer-lhe que a relação da maior parte dos pais era essa, mas ele não lhe deu tempo, saiu dizendo que tinha que vazar. André ficou perturbado e inquieto. Mais tarde, estava a sair de uma aula e vê ir ao seu encontro totalmente transtornada Cristina. Agarra-se a ele a chorar desesperadamente. Nesse momento André percebeu que algo de terrível se tinha passado.
Por entre soluços Cristina disse algo que nunca mais deixaria de ecoar dentro da sua cabeça:
- O João morreu!
João foi encontrado morto na praia, supostamente vítima de uma overdose. André sentiu o mundo rodopiar à sua volta agarrou-se a Cristina para não cair. Dois segundos depois saiu a correr e foi a casa do João. Não teve coragem de entrar foi para casa e enfiou-se na cama. Só saiu dela duas semanas mais tarde.
A mãe estava transtornada pela morte do João e pelo impacto que isso ia ter na vida de André. Não sabia como reagir, achou que o melhor era ficar ali ao lado do filho dando-lhe o apoio possível. Raul também se manteve por lá. Todos os dias ia lá a casa, era um bom amigo. André não falava com ninguém, nos primeiros dias fez febres altíssimas, o médico deu-lhe medicação para o acalmar e para baixar a febre mas nada mais podia fazer. Era uma situação emocional e provavelmente, só o tempo poderia atenuar toda a explosão que, a morte de João causou no André. Todos os dias, cada um de nós, ia até ao quarto de André estava lá uns minutos dizíamos qualquer coisa na tentativa de o animar e saíamos.
A mãe estava a ficar desesperada, até que na terceira semana André deu sinais de estar a sair dessa depressão. Como a mãe já tinha falado com a psicóloga que tinha estado com o André à uns anos atrás, tudo estava tratado para que assim que começasse a dar sinais de melhoras se iria proceder a um tratamento de forma a trazê-lo de novo à vida. E assim foi. Aos pouquinhos André foi recuperando. Eu vi que o meu irmão estava sem dúvida a melhorar e estava super feliz. 
- Olá miúdo como vai isso?
André estava no quarto a ler. Levantou os olhos e sorriu.
- Vai. Mas não precisas de te preocupar, vou melhorar e vou fazer algo para que a minha vida faça sentido… tenho a certeza que o João iria ficar contente.
Cristina também ela procurou ajuda e eu soube que ela estava internada a fazer um tratamento de desintoxicação. Outros houve que não, mantiveram-se na mesma rota de colisão e ruptura. O importante para mim, embora lamente os restantes é que o André vai de vento em popa… com alguns ventos desconcertantes, mas o saldo é positivo

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Quem sabe talvez um dia se pudesse dedicar à política e ajudar a mudar um pouco a visão das coisas? Não! Delirava. Queria lá saber das pessoas. Cada um que se arranjasse. Quanto aos pais, ninguém lhes tinha pedido que tivessem filhos. O que ela curtia mesmo era estar sem fazer nada, assim sossegada sem que ninguém lhe desse cabo do juízo. Era tudo muito complicado.

Beatriz continuava ali, do lado dela, silenciosa, apenas observando... Como gostaria de perceber o que se passava, porquê tanto mistério e tanto silêncio. Era suposto levá-la de volta ao seu quarto sã e salva.
- Bom, vais-me então dizer porque falaste do piquenique?
- Já te lembras de tudo?
Sara fez um ar espantado. Não percebia. Beatriz queria falar-lhe de algo especial, algo que acontecera nessa altura. Era só mencionar esse facto, que ela se lembraria. Porque tinha Beatriz de estar sempre com estes jogos de quebra-cabeça? De qualquer forma não tinha acontecido nada de importante. Foram todos para Trofa. Era habitual no Verão fazerem um passeio em família, para ficarem a conhecer um pouco mais o “lindo país em que vivemos” diziam os pais. Era sempre em altura de Feiras e faziam depois um tour turístico pelas zonas mais interessantes. E assim foi. Finalmente abancaram numa praia fluvial que creio se chamava Bairros e o rio era o Ave. Lembrava-se que era giro ir para a água porque não havia ondas, a água era calma e para ela, que era mais miúda na altura, não podia haver melhor. Ia muita gente para lá.. Lembrava-se... que engraçado como a memória surge sempre de uma forma encadeada, umas coisas puxam as outras.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

André (um conto - cont.)

André chegou a casa tarde. Tinha caminhado um pouco para alinhar ideias e disfarçar as olheiras do choro. Não se sentia criança nem adulto. Sentia a sua existência sempre entre contradições.

A mãe olhou para ele:

- São horas André? Quantas vezes te pedi para vires a direito? Será que me vais obrigar a ter que te ir esperar à saída da escola? Voltamos ao tempo da criancinha?

- Não stresses mãe, amanhã vou ter teste e tive com o Raul a ver umas coisas.

- Não podias ter avisado? Já sabes que prefiro que o faças cá em casa.

- Pois, pois. Também a mãe do Raul.

E lá foi ele para o quarto. Eu fui ter com ele.

- Posso? Então tiveste com o Raul? Que engraçado, eu tive com o Raul e tu não estavas lá! – André olhou-me surpreso.

- Ah , sim? Vais a correr contar à mãe?

- Qual é a tua André? Andas a bater mal todas as horas, ninguém sabe porquê, afastas as pessoas que realmente gostam de ti e misturas-te com essa corja de alucinados que anda para aí. Vais então ouvir aquilo que tenho para te dizer.

André e eu somos completamente diferentes. Eu questionei e questiono algumas das coisas que ele questiona, mas não vou fundo a plissar nos porquês, nos ques nos mas, nos se, etc. As coisas são como são e soluções não as vejo, por isso é andar em frente e deixar correr. Mas isto sou eu, o André é outra história.

- Julgas que vais conseguir o quê com este comportamento? Respostas às tuas perguntas? Resposta às tuas preces? Já estou farta de te ver assim André. E deixa-me dar-te uma novidade meu “querido irmão” a vida é assim, feita de coisas bonitas e feias, e para nós, a maior parte das vezes é uma porcaria. Outra novidade, faz parte do cresceres, passares por estas coisas e não te adianta nada bateres fundo porque as respostas não vêm daí, mas queres? Então vai de uma vez. Estou farta de ver a mãe pelo cantos da casa a rezar para que tudo esteja bem contigo, a andar a chatear tudo e todos por tua causa. Abre os olhos, não és o único na face da terra. Nasces, cresces e morres, ok? Nada, nada vai alterar isso. Quanto ao resto vais ter muito tempo para poderes intervir naquilo que achas que está mal. Deixa-te dessa postura de vítima e de egoísta profundo que já chateia... tenho dito!

Saí do quarto. Não sei se disse alguma coisa com sentido para todo o mundo e em particular para o André. Este manteve-se quieto.

Não sabia o que pensar. Já sabia que o discurso fazia algum sentido e daí? Que mudava? Não, não ia pensar em mais nada. Amanhã.

Ser ou não Ser

«... Cada pessoa que nasce deve ser
orientada para não desanimar com o
mundo que encontra à volta.
Porque cada um de nós é um
ente extraordinário, com lugar no céu
das ideias... seremos capazes de nos
desenvolver, de reencontrar o que em
nós é extraordinário, e
transformaremos o mundo.»

Agostinho da Silva

domingo, 19 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

Dizia que eram todos uns exploradores, e que cada um deles andava lá, para resolver a sua vidinha, “maribando-se” para o “Zé Povinho”. “A verdade” dizia a mãe “é que o primeiro a ser tramado é sempre o povo. Esses camelos – dizia ela, ao telefone com a tia – ainda vêm para os jornais e televisão, chamar-nos a todos analfabetos e burros, fazendo afirmações que dão vida a um morto. Eles, na verdade assim nos querem manter, ignorantes e analfabrutos. Por um lado, fingem que querem tirar o país do analfabetismo aumentando a escolaridade obrigatória, por outro, aumentam as propinas, os preços dos livros e de todo o restante material. Não criam condições para que um pai possa manter o seu filho na escola. Depois, acusam-nos de “não participarmos” na vida académica dos nossos filhos e, para “facilitar”, marcam reuniões em horário laboral. Por um lado, promovem tudo o que é “Doutor”, tanto profissional como socialmente, por outro, limitam as vagas no ensino superior, entopem as saídas profissionais e alegam que nem toda a gente tem que ser doutor. A função pública dá prejuízo. Eles, políticos, como tal funcionários públicos, cujo ordenado é o único, em toda a classe, que está equiparado aos da Europa, passam a vida a achar que têm que ser aumentados, faltam que é um disparate, produzem a miséria que está à vista e quem paga tudo, é o desgraçado que obedece, que tem superiores, e que é obrigado a fazer o que lhe mandam. Mete-me nojo toda esta hipocrisia e, sinto um profundo desprezo por todos eles.” A mãe era uma revolucionária!

Detestava mesmo estas cenas. Resumindo: os pais são obrigados a trabalhar cada vez mais. Enfim, para Sara tudo bem, gostava era de sentir que valia a pena. A mãe trabalhava em dois sítios e o pai trabalhava 14 horas por dia. Apesar de tudo, Sara achava que lhe faltava muita coisa, pois os pais alegavam falta de dinheiro. Então quem lhe explicava como é que os pais a trabalhar assim, não tinham dinheiro para tudo e ainda tinham de ter tempo para eles? Às vezes, quando punha os neurónios a funcionar pensava nestas coisas e, achava que a vida e as pessoas, nem eram justas umas para as outras, nem tinham uma vida muito justa. Lembrava-se de alguns colegas, cujos pais ainda tinham mais dificuldades que os dela, e de como esses colegas eram piores alunos. Como o Joaquim, a quem a mãe de Sara deu explicações de borla. Um dia Joaquim foi lá a casa e a mãe perguntou-lhe se ele queria passar a fazer os deveres com a Sara. Ele disse que sim e, nesse ano tirou melhores notas e passou. A mãe dizia que ele era bastante inteligente, mas não tinha acompanhamento. “É uma pena” dizia ela. Joaquim tinha que tomar conta do irmão mais novo. De manhã, antes de ir para as aulas, levava-o a uma senhora que ficava com ele e depois da escola ia buscá-lo. A mãe do Joaquim que estava divorciada, saía muito cedo de casa e, chegava muito tarde. No ano seguinte a mãe do Joaquim voltou a pedir à mãe de Sara para ajudar o filho. Nesse ano no entanto, a mãe de Sara, viu-se aflita e obrigada a arranjar um part-time e não dispunha de tempo, daí que não se pôde comprometer. Ficou bem triste, pois sabia que sem uma ajuda o Joaquim se perderia. E assim foi. Joaquim nesse ano chumbou e Sara deixou de o ver com tanta frequência.

sábado, 18 de setembro de 2010

«Tem sempre presente que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos… mas o que é importante não muda:

A tua força e convicção não têm idade. O teu espírito é como qualquer teia de aranha. Atrás de cada linha de chegada há uma de partida.

Atrás de cada conquista vem um novo desafio.

Enquanto estejas viva, sente-te viva. Se sentes saudades do que fazias volta a fazê-lo.

Não vivas de fotografias amarelecidas…
Continua quando todos esperam que desistas.

Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.

Faz que em vez de pena te tenham respeito.

Quando não conseguires correr através dos anos trota. Quando não consigas trotar caminha.

Quando não consigas caminhar usa uma bengala. Mas nunca te detenhas



Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sara (um conto - cont.)

- Detestaste, não foi?

Acenou com a cabeça ficando expectante em relação ao que se seguiria. Não se seguiu rigorosamente nada. Beatriz calou-se, emudeceu, perdeu o pio. Sara fixou-a atónita. É de loucos! Pensou que lhe ia fazer alguma revelação fantástica sobre o assunto, mas não...

Lembrava-se tão bem desse episódio. Tinha odiado, pois como já tinha referido, tinha ficado toda mordida e com uma valente constipação, para além de que tinha sido numa altura em que já não apreciava a companhia dos pais. Estes, procuravam promover estas tretas de família p’ra cá e p’ra lá. Era crónico. A maior parte dos seus amigos queixava-se do mesmo. Aliás esta cena de promover a família era uma treta social, que a chateava bué. Tanto falavam que os pais tinham que ter tempo para os filhos e no entanto os pais cada vez tinham que trabalhar mais. Ora, logicamente, mais tempo estavam fora de casa e, nem por isso percebia que os pais, se encontravam numa situação económica melhor. Pelo contrário. Continuava a ouvir os pais a lamentarem-se do peso dos impostos, do absurdo que lhes era exigido para terem alguma dignidade existencial. Das coisas todas que tinham comprar e que pagar. Muitas vezes ouvia a mãe dizer que “pagavam até o ar que respiravam”. Não é justo. O ar está poluído e só causa doenças, como podem obrigar as pessoas a pagá-lo? Sim, sim, os neurónios de Sara não eram assim tão maus, sabia perfeitamente que não se paga o ar que se respira sabia exactamente o que a mãe queria dizer. A mãe detestava a classe política portuguesa.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

André (um conto - cont.)

Começou a escurecer e já tinha chegado mais pessoal, era só cerveja e “ganza”. Cristina chegou perto do André e estendeu-lhe a mão entre cujos dedos se encontrava o “charro”

- Vá lá. Fuma. Vais ver que ficas muito mais liberto e não dói.

Cristina tinha 16 anos era já uma mulher feita em toda a acepção da palavra. Era daquelas miúdas muito populares, e muito bonita.

André olhou para o cigarro. Seguiu-se um silêncio pesado e expectante.

- Não obrigada. Aliás tenho que ir.

Que fazia ele ali, no meio daqueles frustrados todos? Ele sabia que de alguma forma fazia parte deles, mas ao mesmo tempo... algo o puxava ora numa ora noutra direcção. Sentou-se, pôs a cabeça entre as mãos e chorou.

Detestava a vida! Não entendia o significado de existirmos. A Mãe dizia que ele era muito novo para se preocupar com essas questões, tinha era que se divertir e fazer as coisas próprias da sua idade, além de que ela também não tinha respostas para todas as perguntas. Como se ele pudesse controlar o correr dos seus pensamentos. Preferia mil vezes nem pensar, não se questionar, não querer saber, só que isso não dependia dele. Tudo o que se passava na sua cabeça, André não controlava. Lutava constantemente, com aquilo que era supostamente o certo e aquilo que era supostamente o errado. Sabia que não queria fazer sofrer a mãe, não só porque gostava muito dela, mas porque a mãe já tinha sofrido muito por causa da droga: uma irmã da minha mãe da qual nenhum de nós se lembra muito bem, pois éramos muito pequenos suicidou-se. A mãe sofreu terrivelmente e André tem lembrança desse sofrimento, sem no entanto o saber explicar. No entanto, é a vida dele que terá que ser vivida e por vezes, prefere não pensar em ninguém a não ser nele próprio. A mãe diz que não pode querer trazer a si a responsabilidade das injustiças do mundo. Quando André está cara a cara com a mãe vê naquele olhos o desespero. O desespero de uma mãe que quer agarrar o filho que vai escorregando num leito de seduções perigosas. E sente que não lhe pode retribuir, ainda, um olhar de esperança.